'Episódio é desastroso para imagem dos EUA'

Apoio da população local definirá o lado vencedor da guerra do Afeganistão, diz professor que criou o conceito de 'soft power'

Entrevista com

ROBERTO SIMON, O Estado de S.Paulo

14 de março de 2012 | 03h08

Em uma luta de guerrilha como a do Afeganistão, na qual vence quem conseguir "conquistar os corações e mentes da população", episódios como o massacre do domingo são "absolutamente desastrosos". A avaliação é de Joseph Nye, professor de Harvard que cunhou o termo "soft power". O conceito - hoje parte do vocabulário corrente da política internacional - refere-se à capacidade que Estados têm de atrair, por causa de seus valores e de sua imagem, os demais. O novo livro de Nye, O Futuro do Poder (Editora Saraiva), chega este fim de semana às livrarias do Brasil. A seguir, trechos da conversa por telefone com o Estado.

Qual é o impacto do massacre no esforço de guerra no Afeganistão, lembrando de outros casos recentes, como as imagens de americanos urinando em cadáveres de afegãos e a queima de exemplares do Alcorão?

O episódio de domingo é absolutamente desastroso a0 soft power dos EUA, não há dúvida. Uma guerra de contrainsurgência, como a do Afeganistão, é ganha por aquele que consegue conquistar os corações e mentes da população local. Essa perda de soft power, portanto, representa um enorme prejuízo.

E os EUA querem, em menos de três anos, deixar para trás um país estável e amigo. É possível?

O problema do Afeganistão, desde o início da intervenção americana, foi a construção de instituições políticas viáveis. Isso é muito difícil com um governo fraco e corrupto.

O governo Obama passou mais tempo negociando um cessar-fogo com o Taleban do que um acordo nuclear com o Irã. Como o sr. vê a atual posição americana no mundo islâmico?

Primeiro, estamos melhor fora do Iraque - onde nunca devíamos ter pisado, aliás. Vejo ainda que Obama definiu um cronograma para a retirada gradual do Afeganistão. Acho que, nesses pontos, estamos melhor do que há quatro anos, com o governo George W. Bush. Mas, se olharmos para outros elementos, como a questão palestino-israelense ou as chances de alcançar um acordo com o Irã, não houve nenhuma evolução.

Em seu novo livro, o sr. fala sobre duas mudanças fundamentais do século 21: o 'retorno' da Ásia e a era da informação instantânea. Como é isso?

Há duas mudanças em curso na cena global. A primeira, que chamo de "transformação do poder", diz respeito à recuperação da Ásia. Em 1800, o continente tinha mais da metade da população mundial e do PIB global. Após a Revolução Industrial, a Ásia passou a ter apenas 20% do PIB mundial. O que vemos agora é a recuperação da região a proporções mais normais, mas isso significa também uma mudança no poder em direção ao Oriente. A dinâmica dependerá da relação EUA-China. Se houver ruptura, poderemos ter um cenário semelhante ao da ascensão da Alemanha diante da Grã-Bretanha na virada do século 19 para o 20. Mas acho que isso pode ser evitado.

E a segunda mudança?

É o que chamo de "difusão do poder" ou a passagem de poder das mãos de governos - do Ocidente e Oriente - para atores não estatais. Esse processo foi acelerado pela presente revolução da informação, na qual o custo da comunicação caiu de modo tão acentuado que reduziu o quase monopólio do Estado nesse setor. Com isso, a cena internacional está se tornando muito mais 'povoada' de atores de diferente natureza. Diferentemente da 'transformação do poder', essa segunda mudança é inédita na História.

Em seu livro, o sr. diz que, nesse novo cenário, prevalecerão países que têm 'a melhor história para contar, como o Brasil'.

Sim, o Brasil é um exemplo. E essas mudanças na natureza do poder beneficiam muito os brasileiros. Não há riscos de uma invasão do Uruguai (risos) e o Brasil tem de fato uma ótima história para contar, de redemocratização e sucesso econômico. Se pensarmos nos Brics, veremos que o Brasil é democrático e cresce, enquanto Rússia e China, não. A Índia é democrática, mas enfrenta problemas sérios. E a África do Sul não tem o peso econômico dos demais.

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