New York State Division of Criminal Justice Services/REUTERS
New York State Division of Criminal Justice Services/REUTERS

Jeffrey Epstein queria 'melhorar' a raça humana com seu DNA

Empresário americano acusado de tráfico sexual era fascinado pelo trans-humanismo, a ciência de aperfeiçoar a população com engenharia genética e inteligência artificial que é considera por críticos uma versão moderna da eugenia

James Stewart, Mattew Goldstein e Jessica Silver-Greenberg, The New York Times

10 de agosto de 2019 | 11h44

Jeffrey Epstein, o financista milionário acusado de tráfico de mulheres que foi encontrado morto na prisão neste sábado, 10, tinha um sonho incomum: ele esperava semear a raça humana com seu DNA engravidando mulheres em sua enorme fazenda no Novo México.

Através dos anos, Epstein revelou a cientistas e outros seus planos, segundo quatro pessoas que o conheciam, embora não haja evidências de que as ideias tenham sido postas em prática.

A visão de Epstein reflete seu longo fascínio com o que ficou conhecido como trans-humanismo: a ciência de aperfeiçoar a população humana por meio de tecnologias como engenharia genética e inteligência artificial. Para críticos, trans-humanização é uma versão moderna de eugenia, o desacreditado campo do aprimoramento da raça por meio de nascimentos controlados.

Epstein, que foi acusado em julho de tráfico sexual de garotas de até 14 anos, era um mentiroso serial: mentiu sobre a identidade de seus clientes, sua riqueza, suas habilidades financeiras, suas realizações. Mas conseguiu usar conexões e carisma para cultivar valiosas relações com líderes empresariais e políticos.

Entrevistas com mais de uma dezena de conhecidos, assim como documentos revelados, mostram que ele usava as mesmas táticas para se insinuar numa comunidade científica de elite, o que lhe permitiu ir em  frente com seu interesse em eugenia e outros campos marginais, como a criônica.

Advogados de Epstein, que se declarou inocente do tráfico de mulheres, não atenderam a pedidos para comentários.

Epstein atraiu um grande número de destacados cientistas. Isso incluiu o físico vencedor do Prêmio Nobel Murray Gell-Mann; o físico e escritor Stephen Hawking; o biólogo e palentologista Stephen Jay; o neurologista e escritor Oliver Sacks; o engenheiro molecular e escritor George M. Church; e o físico teórico do MIT Frank Wilczek, também laureado com o Nobel.

O psicólogo cognitivo Steven Pinker disse ter sido convidado por colegas para os salões de Epstein. Mas, enquanto alguns colegas de Pinker louvavam Epstein como “brilhante”, o psicólogo o descreveu como “impostor intelectual”.

Outro cientista badalado por Epstein, Jaron Lanier, um dos criadores da realidade virtual, disse que as ideias de Epstein não eram ciência. Segundo Lanier, uma vez Epstein disse que os átomos se comportavam como investidores em negócios.

Então, veio o interesse de Epstein em eugenia.

Em várias ocasiões, desde 2000, Epstein revelou a cientistas e empresários suas ambições de usar sua fazenda de gado no Novo México como base onde mulheres seriam inseminadas com seu esperma para dar à luz seus bebês, segundo fontes confiáveis que ouviram isso do próprio Epstein.

Não era segredo. Uma das fontes, um conselheiro, disse que ouviu as pretensões não apenas de Epstein, mas de um destacado empresário. Um cientista disse que a ideia era perturbadora, mas não havia indícios de que fosse contra a lei.

Segundo Lanier, Epstein disse a uma outra cientista que sua meta era inseminar 20 mulheres de cada vez. Lanier disse que a colega cientista trabalhava para a Nasa, mas não se lembrava de seu nome. 

A Southern Trust Co., empresa de Epstein nas Ilhas Virgens, revelou numa nota que estava engajada em análise de DNA.

Em 2011, uma organização de caridade criada por Epstein doou US$ 20 mil à Worldwide Transhumanist Association, que hoje opera sob o nome de Humanity Plus. O site do grupo diz que sua meta é “influenciar profundamente uma nova geração de pensadores que ousam divisar os novos passos da humanidade”.

lan M. Dershowitz, professor emérito de direito em Harvard, disse que num almoço que Epstein promoveu em Cambridge, Massachusetts, o anfitrião levou a conversa para como os humanos poderiam melhorar geneticamente. Dershowitz disse que ficou estarrecido, por causa do uso da eugenia pelos nazistas. “Especulava-se se aqueles cientistas estariam interessados nas ideias de Epstein ou em seu dinheiro”, disse ele.

Epstein parece ter entrado na comunidade científica por meio de John Brockman, agente literário cujo quadro de escritores científicos incluía Richard Dawkins, Daniel Golemam e Jared Diamond. Brockman não atendeu aos pedidos de comentários.

Em 2014, Brockman promoveu um jantar no restaurante Indian Summer, em Monterey, Califórnia, no qual Epstein foi apresentado a cientistas como Seth Lloyd, físico do MIT. Lloyd disse que achou Epstein “insinuante e com ideias interessantes”, que no entanto mais tarde se revelaram vagas.

No jantar no Indian Summer também estiveram, segundo o site de Brockman, os fundadores do Google, Sergey Brin e Larry Page, e o dono da Amazon, Jeff Bezos. “Todas as belas mulheres presentes sentaram-se à mesa de Lloyd”, disse um produtor da CBS, Daniel Dubno, que estava no jantar.

Embora seus contatos científicos fossem notáveis, Epstein não resistiu à tentação de fantasiá-los um pouco mais. Em um de seus sites ele disse que teve “o privilégio de financiar muitos cientistas proeminentes”, incluindo Pinker, Thorne e o matemático e geneticista do MIT Eric S. Lander.

Pinker disse que nunca recebeu dinheiro ou qualquer outro tipo de apoio de Epstein, acrescentando que considerava seu comportamento “repreensível”. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.