Equador elege hoje sua Constituinte

Segundo analistas e pesquisas, popularidade do esquerdista Correa deve dar maioria de cadeiras a seu partido

Renata Miranda, O Estadao de S.Paulo

29 de setembro de 2007 | 00h00

País cujo sistema político se deteriorou ao longo da última década - período de instabilidade durante o qual teve sete presidentes -, o Equador vai às urnas hoje para escolher os responsáveis por redigir uma nova Constituição. Estão registrados 9,3 milhões de eleitores, que elegeram 130 deputados constituintes entre 3.229 candidatos.A previsão de institutos de pesquisa é a de que o partido Aliança País, do presidente Rafael Correa - amigo do líder venezuelano, Hugo Chávez -, consiga a maioria das cadeiras.''''Após tantas crises políticas, o povo equatoriano vê Correa com esperança'''', afirmou a socióloga da Pontifícia Universidade Católica do Equador Natalia Sierra ao Estado, por telefone. Segundo ela, a alta popularidade do presidente - cerca de 75% de acordo com pesquisa divulgada na semana passada - deve garantir o triunfo da Aliança País.Há nove meses no cargo, Correa, um economista de 44 anos, afirmou que colocará seu cargo à disposição da Constituinte e, ao mesmo tempo, pedirá a dissolução do Congresso unicameral, o qual ele qualifica de ''''corrupto e incompetente''''. O partido de Correa não tem nenhum deputado no Congresso em razão do boicote à eleição legislativa do ano passado.Agora, Correa espera ser ratificado no poder pela Constituinte para avançar em seu projeto político. Assim como Chávez, Correa propõe a instalação de um ''''socialismo do século 21'''' no país. No entanto, na semana passada, o líder equatoriano disse que, diferentemente de Chávez, ele não pressionará a Constituinte para derrubar a proibição à reeleição. Correa disse ainda que não tem interesse nenhum em promover reformas para perpetuar-se no poder.O cientista político Pablo Andrade, coordenador do Programa de Estudos Latino-Americanos da Universidade Andina Simón Bolívar, em Quito, analisa que, caso o partido governista conquiste de fato a maioria absoluta, a oposição pode tentar bloquear a Constituinte. ''''Neste cenário, os grupos opositores devem fazer o máximo para impedir a aprovação da nova Constituição'''', afirma Andrade. No entanto, o analista lembra que a oposição pode ter dificuldades em criar fortes alianças para enfrentar o presidente.Alexei Páez, analista político da Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais (Flacso) do Equador, acredita que a oposição não representa perigo nenhum para o Aliança País. ''''A oposição equatoriana é heterogênea e desorganizada'''', afirmou. ''''Nesse momento, o presidente está sozinho, diante de uma estrutura política destruída'''', explica Páez.CRISE POLÍTICANos últimos dez anos, o Equador viu seu sistema político desmantelar-se em meio a crises que acabaram fazendo com que três presidentes eleitos não conseguissem chegar ao fim do mandato. ''''Após tantas tormentas políticas, o país está esgotado e as estruturas de poder estão altamente depreciadas e insustentáveis'''', disse Páez. ''''Estamos num momento de mudança real para o país e a proposta de uma nova Constituição tem todo sentido.''''Hoje será a quarta vez em menos de um ano que os eleitores equatorianos irão às urnas - as duas primeiras foram no fim do ano passado para escolher o presidente (Correa foi eleito no segundo turno com 56% dos votos válidos). A terceira foi em 15 de abril, no referendo que decidiu, por 82% dos votos, em favor da instalação da Assembléia Constituinte.O fórum constitucional será instalado na cidade de Montecristi no dia 31 e funcionará durante 180 dias - podendo ter seu prazo prorrogado em até 60 dias.O organismo será dirigido por um presidente e dois vice-presidentes escolhidos pela maioria absoluta de seus integrantes. Para aprovar os projetos, serão necessários os votos de pelo menos 66 deputados.Essa será a segunda Assembléia Constituinte da história recente do Equador, que modificará a Carta aprovada em 5 de junho de 1998. A nova Constituição será a 20ª do país.Para o analista Páez, a formação da Constituinte é um momento decisivo para o governo de Correa e deve ajudar o presidente a recompor a constitucionalidade do país.No entanto, ele ressalta que, caso a Constituinte não consiga resolver a crise política no Equador, a gestão do presidente poderá ser considerada um fracasso. ''''Em outras palavras, neste momento, o Equador está em um ponto de decisivo no qual ou seguimos adiante ou tudo desabará.''''

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