Henry Romero
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Equador elege sucessor de Correa, cotado para 2021

Depois de uma década no poder, economista bolivariano promete se mudar para a Bélgica para não atrapalhar presidente escolhido hoje

Cristiano Dias ENVIADO ESPECIAL / GUAYAQUIL, O Estado de S.Paulo

02 Abril 2017 | 05h00
Atualizado 02 Abril 2017 | 15h24

O Equador escolhe hoje quem substituirá Rafael Correa, presidente do país nos últimos dez anos. O segundo turno da eleição será decidido entre o governista Lenín Moreno e o opositor Guillermo Lasso, mas a grande discussão em mesas de bar, bancos de praça e filas de banco é a volta de Correa em 2021.

“O que está em jogo nesta eleição é quem ocupará a presidência durante a transição entre a primeira e a segunda fase do correismo”, disse ao Estado o consultor político Oswaldo Moreno. “Ele tem 53 anos, vive em cima de uma bicicleta e tem muito tempo pela frente. Correa não vai curtir a aposentadoria por muito tempo.”

“Há uma crença generalizada de que Correa voltará em 2021 como salvador da pátria”, afirma o historiador e jornalista Miguel Ángel Bastenier. “Mesmo se a oposição vencer, ele conta com um retrocesso neoliberal, que agravaria as desigualdades e faria com que ele voltasse ainda mais triunfante.”

Em dezembro de 2015, a Assembleia Nacional aprovou a reeleição ilimitada no Equador. O conjunto de emendas constitucionais impedia o atual presidente de se candidatar em 2017, mas abria as portas para sua volta em 2021. 

O próprio Correa não desmente e sempre que pode coloca lenha na fogueira. “Daqui a um ano, estarão todos pedindo eleições antecipadas”, disse o presidente em fevereiro, assim que soube que a disputa seria decidida em segundo turno. “Aí, vou voltar e vencê-los de novo usando a ‘morte cruzada’.”

A morte cruzada a que se refere Correa é um dispositivo inserido na Constituição de 2008 que pode ser usado pelo Executivo ou pelo Legislativo para se dissolverem mutuamente, forçando uma nova eleição. Para acionar o mecanismo é preciso o apoio de 92 dos 137 deputados - o Aliança País, de Moreno e Correa, fez 74.

Correa diz abertamente que após deixar o poder quer se mudar para a Bélgica, terra de sua mulher Anne Malherbe, onde pretende dar aulas por alguns anos. “É hora de passar um tempo com a família”, disse o presidente em janeiro. “Se eu fico no Equador, sempre vão querer que eu fale alguma coisa sobre o país e qualquer coisa que eu disser pode atrapalhar o novo governo.”

Assunto de bar. O voto é obrigatório para 13 milhões de equatorianos. Ao contrário do Brasil, onde a multa é irrisória em caso de ausência sem justificativa, no Equador ficar em casa custa US$ 37,5 (cerca de R$ 130). A eleição de hoje está na ordem do dia, mas nem sempre é tratada de maneira racional pelos eleitores.

“Vou votar em Lasso porque ele é fraco e será mais fácil retirá-lo do poder”, disse um senhor de meia idade para um amigo na fila de um banco de Quito. Um jovem sentado à mesa de um bar de Guayaquil culpou Correa e Moreno pelo terremoto que matou mais de 600 pessoas no norte do país em abril do ano passado. Um outro reconheceu que Lasso faria a situação do país piorar, mas disse que votaria nele mesmo assim.

Outro fenômeno que aproxima a eleição equatoriana de várias pelo mundo afora é o milagre da multiplicação de notícias falsas disseminadas em redes sociais. Entre as mais conhecidas está um documento do Departamento de Justiça dos EUA, escrito em espanhol, com os nomes de quem recebeu propina da Odebrecht. Encabeçando a lista está Jorge Glas, vice da chapa de Moreno. Outra bravata foi a divulgação de uma carta em que o Banco Guayaquil, do qual Lasso foi presidente, assumiria a função de Banco Central caso o opositor fosse eleito.

A mesma polarização vista em outros lugares parece a marca do novo debate político também no Equador, onde o mesmo índice é usado para dizer coisas opostas. Na década de Correa, o crescimento dos gastos públicos como porcentagem do PIB dobrou. Para os governistas, é a prova de que o presidente construiu escolas, hospitais, estradas, hidrelétricas e aeroportos. Para os opositores, representa o endividamento que coloca em risco a estabilidade econômica do país.

Sucesso. O empresário Jorge Marun é o exemplo do Equador que deu certo com Correa. Dono da fazenda San José, em Babahoyo, a 70 quilômetros de Guayaquil, ele acompanha com ansiedade o processo eleitoral. Moreno e Lasso podem determinar o futuro das 1.400 toneladas de banana e 800 de cacau que ele tira da terra por ano. “O país está dividido, mas temos potencial para crescer muito mais”, disse. “Temos um clima perfeito, temperatura, água e sol na medida certa.” 

Na fazenda, Marun tem desenvolvido lentamente uma marca de chocolate tipo exportação. Nos últimos meses, o Willy Wonka equatoriano tem estudado como misturar banana e cacau na mesma barra. O resultado sai em dois meses, mas já pode ser percebido no cheiro doce das sementes fermentando nos galpões da fazenda. 

Para não atrapalhar a vida de empresários como Marun, Lasso e Moreno reconhecem a necessidade de o próximo presidente lidar com um orçamento mais apertado em razão da queda do preço do petróleo. Segundo a última pesquisa, Moreno é favorito para assumir o desafio de dirigir o país - ainda que sob a sombra de Correa. O instituto Cedatos lhe dá uma vantagem mais confortável (57,6% a 42,7%). Mas nos tempos de Brexit e na primeira eleição latino-americana após a vitória de Donald Trump, os equatorianos esperam uma decisão no fotochart.

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