Equador pede ajuda da Cruz Vermelha para identificar corpos

Governo equatoriano quer um exame isento; em estado de choque, sobreviventes das Farc são tratadas em Quito

Expedito Filho, QUITO, O Estadao de S.Paulo

05 de março de 2008 | 00h00

O avançado estado de decomposição dos 22 corpos de guerrilheiros das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) mortos no sábado, durante a operação militar colombiana que provocou a morte do número 2 da guerrilha, Raúl Reyes, levou as autoridades equatorianas a pedir a ajuda ao Comitê Internacional da Cruz Vermelha e à Interpol na identificação. Os corpos estão sendo levados da área de conflito, região de Angostura, fronteira entre os dois países, até o Instituto Médico Legal em Quito. Embora não exista evidências de que as Farc estavam mantendo reféns no acampamento atacado, o governo equatoriano quer afastar essa possibilidade. Se houver reféns entre as vítimas, a situação da Colômbia se complicará ainda mais. Como hipótese não está completamente afastada, Quito resolveu recorrer a órgãos internacionais para obter uma investigação isenta.Na gelada e mórbida sala do IML, alguns corpos estavam carbonizados, dentro de cubas e no chão frio. O mau cheiro impregnava o ambiente. A imagem era de arrepiar. A maioria dos mortos vestia o uniforme de guerrilheiro.A base das Far atacada ocupava três hectares de Angostura, no lado equatoriano - um acampamento do tamanho que os sem-terra fazem no Brasil. A região fronteiriça entre os dois país é conhecida como "triângulo da morte". Ali, os guerrilheiros criaram uma infra-estrutura para passar vários dias. Tinha uma criação de galinhas e contavam com telefones por satélite para se comunicar com o mundo. No local foram encontrados mais de 20 fuzis. SOBREVIVENTESProtegidas por cerca de 50 soldados do Exército do Equador, três guerrilheiras das Farc que sobreviveram ao ataque de sábado, que têm entre 21 e 25 anos, falaram ontem à imprensa em um hospital de Quito. As colombianas Doris Bohorquez e Marta Pérez estavam lado a lado em leitos da enfermaria do Hospital-Geral das Forças Armadas e sob visível estado de choque.Ela olhavam fixamente os repórteres e apenas respondiam perguntas sobre o seu estado de saúde. Doris tinha dificuldade de se expressar, mas Marta, que se encontrava em melhor estado de saúde, disse que tinha sido muito bem tratada pelos médicos do hospital e agradeceu aos esforços do governo equatoriano. "Independentemente do que aconteceu e dos ferimentos nos braços e nas pernas, estamos bem", disse.Em outro canto da enfermaria, a mexicana Lucía Andrea Morett Álvarez também se limitou a confirmar que estava recebendo o tratamento adequado e agradeceu o fato de elas terem sido salvas. "Eu tinha feridas nos ombros e nas orelhas, mas a atenção dos médicos tem sido muito boa", contou. Doris é a que mais ficou ferida, com fraturas nos braços e pernas . As três só receberam os jornalistas após acertar que não falariam sobre o ataque colombiano. Em grupos de cinco, os jornalistas foram autorizados a entrar na enfermaria, onde as guerrilheiras estão internadas.As autoridades militares equatorianas permitiram o registro de imagem, mas perguntas sobre o ataque e o tipo de papel que as três desempenhavam na guerrilha foram proibidas. Segundo o diretor do hospital, capitão Romel Reyna, os ferimentos das guerrilheiras não eram de tiros e provavelmente foram provocados pelos estilhaços das bombas. Quito não definiu qual será o destino das duas colombianas. Certamente, elas não serão extraditadas, já que os dois países romperam relações. Com relação à mexicana, o Equador iniciou ontem os primeiros procedimentos para repatriá-la.

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