Martin Fowler/Thoughtworks/Divulgação
Martin Fowler/Thoughtworks/Divulgação

Equador prende e acusa hacker ligado a Assange de chantagear presidente

Programador sueco Ola Bini tentou ir para o Japão com documentos relacionados ao presidente equatoriano, Lenín Moreno, e a família dele; as informações teriam sido usadas para impedir que o jornalista australiano perdesse asilo diplomático

Redação, O Estado de S.Paulo

12 de abril de 2019 | 21h42

QUITO - Depois de retirar o asilo diplomático concedido a Julian Assange, fundador do WikiLeaks, o Equador deteve em Quito o ativista e programador sueco Ola Bini e o acusou de ajudar Assange a chantagear autoridades do país. Bini foi preso ainda na noite de quinta-feira, quando se preparava para viajar para o Japão com 30 dispositivos de armazenamento digital. Segundo o governo, ele levava documentos relacionados ao presidente equatoriano, Lenín Moreno, e a família dele. 

As informações, de conteúdo não revelado pelo Equador, teriam sido usadas para evitar que Assange perdesse o asilo e fosse preso. Ele ficou sete anos confinado na embaixada equatoriana em Londres e pode ser extraditado para os EUA.

A ministra do Interior do Equador, Maria Paula Romo, disse que há alguns anos o governo sabia que um associado de Assange e grande colaborador do WikiLeaks estava no Equador. O programador é acusado de trabalhar ao lado de hackers russos em “tentativas de desestabilizar o governo”. Nas investigações que levaram à prisão do ativista, o governo teria descoberto o acesso a mensagens e fotos privadas de Moreno. 

Segundo a ministra, Bini visitou a Venezuela no mesmo período em que o ex-chanceler de Correa, Ricardo Patino, esteve no país, em janeiro. A informação pode abalar ainda mais a relação entre Equador e a Venezuela, estremecida desde a saída de Correa e o alinhamento de Moreno ao Grupo de Lima, a reunião de países latino-americanos que, ao lado do Canadá, condena o regime chavista. 

Ao comentar a prisão, a ministra ainda disse que o governo não vai deixar o Equador se transformar em um “centro de hackers”. Além de Bini, a polícia estaria buscando os dois hackers russos, já identificados pelos investigadores. 

A acusação de espionagem à família de Moreno levanta a suspeita de que a decisão de retirar Assange da embaixada do Equador teve outras motivações além da “soberania” equatoriana e das travessuras de Assange – segundo a chancelaria do Equador, o ativista passeava de skate, ouvia som alto de madrugada e tinha hábitos de higiene pouco convencionais.

O ex-presidente do Equador Rafael Correa, que havia concedido asilo a Assange em 2012 e, mais tarde, a cidadania equatoriana, criticou seu sucessor e a prisão. O ex-presidente afirmou que Moreno entregou Assange “por vingança porque o WikiLeaks publicou os Papéis INA, o grave caso de corrupção no qual Moreno está envolvido”. 

Correa se refere a uma série de relatórios de rendimentos divulgados recentemente pelo WikiLeaks. Alguns deles apontam para um esquema de corrupção ligando Moreno a uma offshore, empresa aberta em território onde há menor tributação, geralmente usada para evasão fiscal ou lavagem de dinheiro. 

Segundo uma investigação revelada pelo WikiLeaks, Moreno possui ligação com a empresa Ina Investment Corporation, criada por seu irmão em 2012, quando Moreno ainda era vice-presidente. A Ina Investment Corporation é suspeita de manejar contas no Balboa Bank, do Panamá. As contas teriam sido usadas para fazer ao menos duas transferências bancárias para a compra de um apartamento na Espanha, usado por Moreno. O presidente nega as acusações. 

Saída da crise

A retirada do asilo e da cidadania de Assange podem ser não apenas uma questão de espionagem e soberania, mas também uma tentativa de Moreno de driblar a crise em seu governo. Para analistas ouvidos pelo Washington Post, autoridades equatorianas estariam tentando melhorar o comércio e outras relações com os EUA.  

“Os custos de mantê-lo na embaixada e sua atitude ingrata foram ofensivos. A simpatia por Assange havia diminuído e muitos o viam como uma imposição política”, disse o cientista político Joaquín Hernández, reitor da Universidad Espíritu Santo em Guayaquil. “A presença dele atrapalhava a relação com os EUA, e Moreno precisa deles.”

As exportações do Equador para os EUA caíram de US$ 10,87 bilhões em 2014 para US $ 7,47 bilhões em 2015, e o Equador recorreu à China para financiar grandes projetos de infraestrutura, com empréstimos que aumentaram a dívida nacional.

Durante o governo de Correa, o boom do petróleo ajudou a impulsionar a economia do Equador. Mas o preço do combustível e de outras commodities caiu. Na época em que Moreno foi eleito presidente, em 2017, foi forçado a contar não apenas com o legado geopolítico de seu antecessor, mas também com uma recessão econômica.

Buscando ajuda, Moreno assinou um contrato de empréstimo de US $ 4,2 bilhões com o Fundo Monetário Internacional e chegou mais perto dos Estados Unidos. O vice-presidente Pence agradeceu a Moreno em Quito no ano passado pela melhoria nas relações. 

“As ações que você tomou nos aproximaram mais uma vez”, disse Pence. Moreno chamou Assange de “pedra no sapato” e um “problema herdado”. A aproximação dos EUA custou a ele perda de popularidade – chegou a 30% em março, depois de atingir 68% há um ano, segundo o Instituto Cedatos. / AFP, NYT e W. POST

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