Jornalistas são liberados após detenção de mais de duas horas no Palácio Miraflores

Grupo de profissionais da emissora Univision, liderado pelo repórter Jorge Ramos, ficou retido na sede do governo após Maduro ficar irritado com vídeo de jovens venezuelanos comendo lixo

Redação, O Estado de S.Paulo

26 de fevereiro de 2019 | 02h59

CARACAS - Uma equipe de seis jornalistas da emissora americana Univision foi liberada nesta segunda-feira, 25, após passar cerca de duas horas e meia retida no Palácio Presidencial de Miraflores, em Caracas, onde realizava uma entrevista com o presidente Nicolás Maduro. A informação foi confirmada pelo repórter, Jorge Ramos, que liderava o grupo.

“Estivemos detidos, não há outra palavra, por mais de duas horas no Palácio de Miraflores”, disse Ramos. Após a liberação, os jornalistas da Univision – uma das principais empresas de notícias sobre a América Latina dos EUA - voltaram a hotel onde estão hospedados, em Caracas.

Além de Jorge Ramos, ficaram presos na sede do governo venezuelano os jornalistas María Martínez, Claudia Rendón, Juan Carlos Guzmán, Martín Guzmán e Francisco Urreiztieta.

O problema teria acontecido quando Ramos mostrou para Maduro um vídeo com jovens comendo lixo. O conteúdo teria irritado o presidente venezuelano, que “parou a entrevista e foi embora”.

“Eu havia perguntado se ele era um presidente ou um ditador, porque milhões de venezuelanos não o consideram um presidente legítimo por conta das acusações de Juan Guaidó de que ele é um usurpador do poder”, destacou Ramos.

O repórter relatou que, logo após a retirada de Maduro da entrevista, a qual durou cerca de 17 minutos, o ministro das Comunicações da Venezuela, Jorge Rodríguez, afirmou que a conversa não foi autorizada e confiscou todos os equipamentos da equipe.

"Não temos nada", lamentou Ramos, que já chegou a bater boca com o presidente americano Donald Trump durante uma entrevista coletiva no ano passado. “Esta é uma violação total da liberdade de expressão, uma violação aos direitos humanos. Eles acreditam que a entrevista é deles, não nossa”, destacou.

O jornalista afirmou que ele e sua equipe devem retornar para Miami, nos EUA, nesta terça-feira, 26, por volta do meio-dia.

“Shows baratos”

Após o episódio, o ministro Jorge Rodriguez disse pelo Twitter que o governo da Venezuela não se presta a “shows baratos” e sugeriu que o governo americano tentou usar os jornalistas para “inventar um novo falso positivo”.

“Por Miraflores passaram centenas de repórteres que receberam o tratamento decente que que damos habitualmente para quem vem cumprir com o trabalho jornalístico. Não nos prestamos a shows baratos”, disse o ministro.

“Equivalente a sequestro”

O autoproclamado presidente interino Juan Guaidó usou as redes sociais para repudiar o episódio e declarou que o “desespero” de Maduro está “cada dia mais evidente”.

“Condenamos os atos violentos do usurpador contra o jornalista Jorge Ramos e sua equipe da Univision. O desespero do usurpador está cada dia mais evidente, não pode mais responder perguntas”, disse Guaidó.

Também pelo Twitter, o senador americano Marco Rubio também repudiou o fato e afirmou que o governo de Maduro “é um regime arrogante que se sente invulnerável e agora atua com total impunidade”.

A chancelaria mexicana, por meio de comunicado, manifestou seu “protesto e preocupação” pelo ocorrido e pediu que os materiais retidos pelo governo venezuelano sejam devolvidos aos jornalistas. Sobre o caso, a presidente da Sociedade Interamericana de Imprensa, María Elvira Domínguez, classificou a ação contra Ramos como o “equivalente a um sequestro”. \ EFE e AFP

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