UNICEF Afeganistão/ 2020
UNICEF Afeganistão/ 2020

Equipe de robótica feminina do Afeganistão quebrou barreiras. Agora integrantes estão desesperadas

Há quatro anos, seis integrantes da 'Afghan Dreamers' foram para Washington para demonstrar seus talentos em uma competição internacional; agora, em meio ao rápido avanço do Taleban, a equipe está tentando escapar

Max Hauptman, The Washington Post, O Estado de S.Paulo

21 de agosto de 2021 | 14h00

Há quatro anos, elas aterrissaram no Aeroporto Internacional Washington Dulles, e foram recebidas com flores e cartazes. Seis integrantes da "Afghan Dreamers", uma equipe de robótica formada exclusivamente por garotas, foram para Washington para demonstrar seus talentos e sua criatividade em uma competição internacional. Agora, em meio ao rápido avanço do Taleban e ao colapso do governo afegão, a equipe está tentando escapar.

"Há muitas pessoas que estão com medo de verdade, muitas garotas que estão bastante assustadas", disse Kimberly Motley, advogada de direitos humanos internacionais que está tentando ajudar o grupo conhecido formalmente como "Afghan Girls Robotics Team".

Sob o controle do Taleban, mulheres e meninas enfrentaram a censura à educação e à expressão no Afeganistão. À medida que o Taleban reassume o controle do país, já existem relatos de fechamento de escolas e medidas repressivas.

Em um artigo de opinião publicado na segunda-feira no The Washington Post, no dia seguinte à entrada do Taleban em Cabul, Kimberly e Meighan Stone disseram que a equipe era "composta por 25 garotas de 12 a 18 anos e seus mentores" de Herat.

"Essas garotas querem apenas estudar", disse Kimberly. "Elas querem continuar tendo a possibilidade de se desenvolver, não importa onde estejam."

A equipe espera que seja no Canadá. "As garotas competiram no Canadá e conheceram o primeiro-ministro", disse Kimberly. "Elas têm um ótimo suporte no Canadá."

O Canadá está entre as nações que se comprometeram a receber 20 mil afegãos, principalmente mulheres, crianças, minorias religiosas e pessoas LGBTQIAP+.

Desde que a equipe foi formada em 2017, ela tem representado algumas das esperanças para uma perspectiva no Afeganistão que inclua uma educação completamente acessível a mulheres e meninas. Os rostos sorrindo da equipe foram estampados em um mural na parte externa dos muros da embaixada americana em Cabul, como um símbolo do que o Afeganistão estava para ser.

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Roya Mahboob, uma empreendedora de tecnologia nascida em Herat, fundou a equipe. Ela agora lidera a Digital Citizens Fund, uma organização sem fins lucrativos que ajuda meninas e mulheres a ter acesso à tecnologia. Roya, assim como o restante da equipe, ainda está no Afeganistão, entregue a um destino incerto.

No domingo, quando o Taleban chegou à Cabul, ela tuitou em dari: "À beira do colapso. Embora as pessoas da cidade estejam resistindo, quão facilmente acreditamos em nossos líderes corruptos... É um momento difícil... todas as noites até a independência, até a liberdade, até a libertação".

Para participarem daquela competição em Washington, as meninas fizeram duas viagens nada fáceis de Herat a Cabul para conseguirem vistos. Houve duas rejeições de visto no meio do caminho e os kits de robótica foram repetidamente detidos por funcionários da alfândega, mas a viagem acabou sendo aprovada.

Ivanka Trump as recebeu na Casa Branca.

Então, no ano passado, à medida que a covid-19 assolava o mundo, a equipe desenvolveu ventiladores feitos com partes de antigos Corollas da Toyota.

Veja o mapa do Afeganistão

Mas para as estudantes da equipe, jovens demais para se lembrar do domínio anterior do Taleban, o futuro delas de descobertas científicas talvez esteja em perigo.

"A política está mudando muito rapidamente", disse Kimberly.

Conforme o Taleban assumia o controle do país neste verão (do hemisfério norte), as preocupações com a segurança das meninas se intensificaram.

"Essas garotas estão apavoradas", disse Kimberly.

Em um artigo de opinião para o The New York Times, Malala Yousafzai escreveu que, "as meninas e jovens mulheres afegãs estão mais uma vez onde eu estive - desesperadas com a ideia de que talvez nunca mais tenham permissão para ver uma sala de aula ou segurar um livro novamente".

A situação para aqueles que desejam deixar o Afeganistão continua instável e incerta. As retiradas são limitadas ao Aeroporto Internacional Hamid Karzai em Cabul, onde aproximadamente 5 mil soldados americanos estão trabalhando para ajudar nas evacuações. Milhares de afegãos correram para o aeroporto em busca de uma maneira de sair do país. Mais de 600 pessoas amontoadas em um avião de transporte militar, um dos voos mais lotados que a aeronave já realizou, deixaram o aeroporto esta semana. Alguns vídeos pareciam mostrar pessoas caindo para a morte enquanto os aviões a que se agarraram decolavam.

Para a "Afghan Dreamers", a saída do Afeganistão - e sua segurança - permanece sem solução.

"O ponto central é que todas as mulheres e meninas deveriam ter liberdade de movimentação, tanto dentro quanto fora do país, para se locomover por terra ou por ar", disse Kimberly. "Elas deveriam ser capazes de fazer isso."

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