Equipe do ‘Charlie’ ainda sofre ameaças

Após 2 anos de atentado que foi ‘marco inicial’ de onda na UE, semanário resiste

Andrei Netto CORRESPONDENTE / PARIS, O Estado de S.Paulo

09 Janeiro 2017 | 05h00


Dois anos após um atentado que chocou o mundo, o semanário satírico francês ‘Charlie Hebdo’ sobrevive e segue fiel à sua política editorial de provocar polêmica e defender de forma intransigente o Estado secular, contra o enraizamento da religião na sociedade e na política.

Desde que dois terroristas armados, os irmãos Chérif e Said Kouachi, invadiram a redação em 7 de janeiro de 2015 e mataram 12 pessoas, ferindo outras 11, no entanto, muitas coisas mudaram na publicação. Seus jornalistas hoje trabalham em um local não divulgado e sob forte proteção da polícia, e parte da velha guarda deixou a equipe em razão do peso das perdas.

O ataque ao Charlie Hebdo foi o marco inicial de um momento obscuro na história da França: a onda de atentados terroristas cometidos em nome da Al-Qaeda e do Estado Islâmico (EI). Desde então, mais de 300 pessoas morreram em grandes ataques em Paris, Montrouge, Saint-Denis e Nice, levando o presidente François Hollande, a decretar estado de urgência – medida que ainda está em vigor. O país mudou e foi obrigado a conviver com o risco iminente de novos atentados.

Sequência. A mudança também foi brusca para o Charlie Hebdo. A comoção mundial causada pelo ataque não serviu para acabar com as ameaças aos jornalistas. Desde o ocorrido, o prédio no número 10 da rua Nicolas Appert, onde o atentado foi realizado, foi abandonado pela equipe do semanário.

Depois de consultar os sobreviventes, o departamento imobiliário da prefeitura de Paris, proprietária do prédio, decidiu oferecer o imóvel para locação. O elevador em pane exige subir as escadas para chegar à sede do grupo SOS, que ocupa os 242 metros quadrados do local.

Após oito meses fechado, o escritório foi reformado para apagar os traços do ataque e hoje recebe a equipe de Nicolas Froissard, vice-presidente da empresa. “Várias pessoas que vêm nos ver pela primeira vez se mostram emocionadas. Há uma grande carga emocional. Mas a vida recomeçou aqui”, diz o empresário.

Em setembro de 2015, os jornalistas deixaram as instalações provisórias oferecidas pelo jornal Libération e se transferiram para uma nova sede, com endereço mantido em sigilo.

Uma nova equipe assumiu o desafio de continuar a publicação e resistir após a saída de nomes como Luz e Patrick Pelloux que deixaram a redação. Além de Riss, sobrevivente e principal acionista do jornal, e nomes como Coco e Catherine, que também escaparam da morte, as páginas também trazem nomes como Vuillemin e Juin, recrutados entre os poucos candidatos que se encaixam no “espírito Charlie”.

Os jornalistas e cartunistas precisam não só se identificar com o humor ácido, mas também arcar com as polêmicas que capas típicas do Charlie, de gosto profundamente duvidoso, provocam. Esses foram os casos da edição de um ano dos atentados, em que deus corre armado de um fuzil AK-47, mas sobretudo a de Aylan, o menino sírio morto em uma praia grega, retratado em setembro de 2015.

O Charlie Hebdo voltou a ser alvo de ameaças a cada grande polêmica, como ocorreu em agosto. A despeito das tensões que pairam sobre a redação, os atuais membros parecem determinados a seguir provocando a controvérsia e estimulando reflexões sobre temas sociais e políticos. Em entrevista à rede de TV francesa LCI, Riss explicou por que a tragédia não matou a publicação: “É preciso rir ainda assim. É preciso rir até o fim”.

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