AFP PHOTO | ARIS MESSINIS
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Equipe tenta identificar vítimas de naufrágios

Na Líbia, trabalhadores de agência humanitária buscam dar nomes a cadáveres de imigrantes que fracassam na tentativa de chegar à Europa

Kevin Sieff, THE WASHINGTON POST, O Estado de S. Paulo

24 Outubro 2015 | 18h44

ZUWARAH, LÍBIA - Ibrahim al-Attoushi procurava por mais um corpo. Praticamente todos os dias cadáveres são trazidos pelas águas a esta remota praia. Corpos de migrantes cujos barcos naufragaram a caminho da Europa. Numa manhã da semana passada, mais um foi encontrado.

Um outro corpo significa mais um túmulo sem nome no cemitério da cidade onde centenas de migrantes já foram enterrados. Significa mais um número nas estatísticas a ser registrado num grosso fichário branco. Mas, principalmente, para Attoushi e vários outros voluntários, quer dizer mais uma pessoa a identificar e outra família aflita a procurar.

Talvez não exista nenhum trabalho que mais assombrosamente capte o alcance da tragédia. Mais de 3 mil morreram afogados tentando alcançar a Europa até agora neste ano.

Caminhando ao longo da costa, a equipe espera encontrar um corpo que ofereça algum tipo de pista. Pode ser uma tatuagem escrita em bengali ou um telefone com um cartão SIM nigeriano num bolso ou uma carta dobrada com um endereço na Síria. Qualquer coisa que limite sua busca a um país, uma cidade ou uma casa onde uma família estaria à espera.

Alguns migrantes se tornaram tão conscientes dos riscos no mar que começaram a escrever números de telefone de parentes nos seus coletes salva-vidas. 

Quando as famílias não têm notícia dos entes queridos que se aventuraram para a Europa começam a rastrear seu caminho de longe. Enviam mensagens por WhatsApp para as pessoas que estão viajando com seu filho ou filha. 

Com frequência, sua busca as leva à página no Facebook do Crescente Vermelho de Zuwarah, capítulo local da Federação Internacional da Cruz Vermelha e do Crescente Vermelho. Attoushi e seu grupo checam as mensagens diariamente, algumas delas em Inglês rudimentar.

“Meu irmão partiu da Líbia e seu barco afundou”, escreveu um homem do Paquistão. “Perdemos um jovem da Tunísia, mas não sabemos o que ele vestia na ocasião”, dizia outra mensagem. “Nossa irmã é uma mulher paquistanesa de 48 anos. Estava usando um vestido preço com bordados cor de rosa”.

Às vezes Attoushi consegue ajudar as pessoas a localizar seus parentes, enviando uma foto do cadáver como confirmação. Então, no pedaço de madeira do túmulo onde havia apenas um número ele escreverá um nome. Mas apenas uma fração dos migrantes mortos são identificados.

“Em alguns desses países é difícil encontrar recursos para os migrantes vivos, imagine para os mortos”, disse Frank Laczko, diretor do Global Migration Data Analysis Center, da Organização Internacional para Migração.

O desafio é ainda maior na Líbia destroçada pela guerra, onde as equipes encarregadas de identificar os migrantes não têm recursos nem treinamento. Attoushi é professor e trabalha para o Crescente Vermelho em seu tempo livre. O especialista em medicina legal mais próximo está a 240 quilômetros de distância. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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