Equipes tiram mais 5 corpos de navio e gravação expõe negligência de capitão

Revelação. Conversa entre Guarda Costeira italiana e comandante do Costa Concordia, posto ontem em prisão domiciliar, mostra que ele foi um dos primeiros a deixar a embarcação; número de mortos chega a 11 e mergulhadores ainda buscam 23 desaparecidos

ILHA DE GIGLIO, ITÁLIA, O Estado de S.Paulo

18 de janeiro de 2012 | 03h01

Equipes de resgate retiraram ontem mais cinco corpos do navio Costa Concordia, que encalhou no litoral da Itália, na sexta-feira. O número de mortos no naufrágio subiu para 11, enquanto a situação do comandante da embarcação, Francesco Schettino, complicou-se ainda mais após a divulgação do áudio de telefonemas entre ele e a Guarda Costeira. As conversas mostram que ele foi um dos primeiros a abandonar o navio.

Na gravação, visivelmente irritado, o capitão Gregorio de Falco, da Guarda Costeira italiana, faz severas reprimendas a Schettino, que parece confuso e desnorteado - para muitos, uma evidência de que ele havia bebido demais, como relataram algumas testemunhas.

O capitão da Guarda Costeira ordenou diversas vezes que Schettino voltasse à embarcação para ajudar no socorro às vítimas, mas o comandante do navio se recusou com respostas evasivas. "Anda, Schettino, já há cadáveres", gritou De Falco. "Quantos cadáveres?", questionou o comandante. "Não sei. Ouvi dizer que há um. Mas é você é quem tem de me dizer, Cristo!", respondeu o capitão.

A Justiça determinou ontem a prisão domiciliar de Schettino. Ele passou por um exame toxicológico - de urina e de uma mostra de cabelo. A procuradoria deve acusá-lo de homicídio culposo múltiplo, naufrágio e abandono do navio quando muitos passageiros ainda estavam a bordo. Se condenado, pode ser sentenciado a 15 anos de prisão.

Ontem, Schettino prestou um depoimento de três horas para investigadores. Ele disse que estava no comando no momento do impacto, negou que tenha abandonado o navio e alegou que "caiu no mar". Entre outras explicações, o comandante deu sua versão para o fato de o alarme de emergência ter soado apenas uma hora após a colisão. O comandante também reivindicou a autoria de uma manobra dramática em direção à costa, que teria "atenuado as consequências da tragédia", segundo os advogados de defesa. "Salvei milhares de pessoas", declarou Schettino durante o interrogatório.

Os primeiros dados da investigação, no entanto, contradizem o comandante. A manobra de Schettino em direção ao porto foi uma "casualidade", de acordo com registros de velocidade obtidos pela Guarda Costeira e armazenados nos sensores do navio. Segundo os dados, a água tomou os motores do Costa Concordia, que pararam de funcionar. A embarcação ficou à deriva e se aproximou da Ilha de Giglio levada pela correnteza.

A retirada dos passageiros também foi desastrosa, segundo os investigadores. A operação começou quase uma hora antes da ordem de abandonar o navio, dada por Schettino. Os primeiros resultados do inquérito mostram que membros da tripulação, quando perceberam que o Costa Concordia estava às escuras e se inclinando, concluíram que não havia tempo a perder e decidiram preparar o desembarque.

Ontem, o movimento das águas do Mar Mediterrâneo já havia deslocado o Costa Concordia em 9 centímetros na vertical e 1,5 na horizontal. Segundo especialistas, as rochas que mantêm o navio seguro em três pontos não são suficientes para sua segurança e estabilidade. Se o mar continuar agitado, cresce o risco de o navio deslizar e cair em um abismo de 90 metros, tornando difícil a extração das 2.380 toneladas de combustível contidas em 17 cisternas na popa.

Sobreviventes. A água continuava a entrar ontem pelos 50 metros de abertura do casco. As condições meteorológicas devem piorar nas próximas 48 horas. Na quinta-feira, é prevista uma forte tempestade, que deve dificultar o trabalho de resgate.

Mergulhadores começaram a usar explosivos de baixa intensidade para entrar em alguns pontos da embarcação que estavam totalmente obstruídos. Foi assim que os cinco corpos foram encontrados ontem. Tudo o que se sabe até o momento é que eram quatro homens e uma mulher, todos acima dos 50 anos, vestidos com colete salva-vidas.

Autoridades ainda não descartaram a possibilidade de encontrar algum sobrevivente e correm contra o tempo para vasculhar completamente o interior do Costa Concordia. A Guarda Costeira ainda busca por 23 pessoas. Ontem, a polícia localizou um turista alemão que constava na lista de desaparecidos. Ele estava em casa, na Alemanha, e contou que resolveu voltar sem avisar. / REUTERS, AFP e AP

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.