Korean Central News Agency/Korea News Service via AP
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Era de equilíbrio

A Coreia do Norte tem mísseis e bombas para tirar o medo do subterrâneo

Gilles Lapouge, Correspondente / Paris, O Estado de S.Paulo

16 Setembro 2017 | 05h00

Um novo míssil foi lançado pela Coreia do Norte com capacidade para transportar uma ogiva nuclear a 3.700 quilômetros, ou seja, além da ilha americana de Guam. O que causou pânico, cólera, ameaças de sanções e a reunião do Conselho de Segurança.

Como a Europa abriga especialistas militares, diplomatas, psicológicos ou geógrafos em enorme quantidade, a cada teste norte-coreano surge uma salva de soluções que vão nos livrar para sempre do homenzinho gordo, risonho e sempre despenteado que governa em Pyongyang.

Mas, nos países asiáticos sob a ameaça imediata do mau humor de Kim Jong-un, o que as pessoas estão pensando? Realizei uma pesquisa rápida lendo artigos publicados em Tóquio e Seul. Na revista GQ Japan, de Tóquio, o filósofo Tatsuru Ushida rejeita as soluções beligerantes. Para ele, o único caminho sensato seria reunificar pouco a pouco a Península Coreana, dividida dramaticamente em 1953, após a Guerra da Coreia.

“Os EUA seriam capazes de lançar mísseis intercontinentais e exterminar a Coreia do Norte. Mas um ataque dessa envergadura provocaria uma chuva radioativa sobre Coreia do Sul, China, Rússia e Japão. Mesmo os grandes guerreiros da história, Qin Shi Huangdi ou Napoleão, não chegaram ao ponto de apagar do mapa um país de 24 milhões de habitantes. 

“Seja no Afeganistão, na Líbia ou no Iraque, os planos americanos para derrubar uma ditadura e instaurar uma democracia fracassaram. A única solução na Coreia seria reunificar a península com base no modelo ‘um país, dois sistemas’”, disse, referindo-se ao status de Hong Kong. Uma solução proposta em 1980 por Kim Il-sung, rejeitada, mas depois retomada por seu filho, Kim Jong-il.

Kim Jong-un talvez aceitasse a ideia do avô desde que sua família pudesse continuar a ter uma vida agradável no seu “reino”. Além do que teria a garantia de não ficar exposto, como hoje, a motins de uma população levada ao desespero pela fome ou a um golpe de Estado fomentado por membros de seu círculo. 

E a Coreia do Sul? Exposta às ameaças do seu vizinho, a Coreia do Sul teve uma sucessão de presidentes pouco dispostos à conciliação. Hoje, excepcionalmente, há em Seul um presidente tolerante, Moon Jae-in. Claro que depois do 15.º teste de mísseis de Pyongyang desde o início do ano, o pacífico Moon elevou o tom.

Na revista Pressian, de Seul, Chang Uk-sik procura convencer seus leitores de que o comportamento delirante de Kim Jong-un é lógico e racional. Ele inicia seu artigo com uma imagem impressionante: “Adivinhe: qual é o metrô mais profundo do mundo? Resposta: o de Pyongyang. Ele circula a 136 metros abaixo da terra. E por quê? Para as pessoas se protegerem contra um eventual ataque nuclear dos EUA.

Este país se questiona há quase 60 anos como enfrentar um ataque nuclear. A Coreia do Norte acabou por fazer com que o medo saísse do subterrâneo. E anuncia uma era mais equilibrada graças aos mísseis intercontinentais com ogivas nucleares. Esta era nuclear da Coreia do Norte foi preparada enquanto Washington e Seul negligenciavam o problema norte-coreano.”

Claro que as duas opiniões não abrangem as reações dos países da região diante da provocação de Pyongyang, mas são encontradas em muitos jornais. No Japão, o Tokyo Shimbun opina: “A reação japonesa é exagerada. O governo de falcões de Shinzo Abe parece instigar o medo para justificar o aumento das despesas militares e aproveitar a situação para emendar a Constituição pacifista do país.” / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO 

 

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