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Era de feminicídios

Na França, a cada ano, entre 150 e 200 mulheres são mortas por seus companheiros

Gilles Lapouge, Correspondente / Paris, O Estado de S.Paulo

09 de julho de 2019 | 05h00

Não havia dúvida. Líamos de tempos em tempos a notícia em um jornal de que uma mulher havia sido encontrada morta depois de uma disputa conjugal. Algo atroz, que causa repugnância, mas considerávamos o fato uma exceção, um gesto absurdo, uma loucura, e esquecíamos o caso. Finalmente há alguns dias dispomos de estatísticas sérias a respeito.

Na França, a cada ano entre 150 e 200 mulheres são assassinadas por seu cônjuge (amante ou marido). Portanto, não são casos excepcionais. É uma rotina. Uma mulher é morta a cada dois dias.

No fim do ano passado, uma mulher e seu marido como sempre viviam em disputa, em sua casa, numa cidadezinha da Córsega. A mulher já vinha sofrendo há muito tempo e então fugiu do domicílio conjugal para outra cidade, onde encontrou um apartamento e um emprego. O marido a encontrou e a matou.

Há casos em que eles também agem com sadismo. Numa cidade do norte da França, um casal de classe média (professores) vivia brigando. Gritos eram ouvidos em sua casa. Num domingo, a mulher recebe seus pais e os levava de carro à praia. No caminho, um carro os seguia. A mulher chama a polícia, que não manifesta interesse pelo assunto. O carro se aproxima. A mulher volta a chamar a polícia, aos gritos: “ele vai nos matar, ele quer nos matar”. O policial, bonachão, diz para ela se acalmar. O marido mata a mãe e o pai, e em seguida mata sua mulher.

“Ele queria”, dirão os investigadores, “fazê-la sofrer até o fim, matando primeiro os pais na frente dela, antes de sacrificá-la”, diriam os investigadores.

Não vamos continuar com esse fúnebre inventário. É sombrio e degradante para a natureza humana. Uma característica recorrente chama a atenção nesse último episódio: a indiferença da polícia. É um absurdo que observamos isso em muitos dos relatos. O que nos leva a crer que os policiais, até mesmo do sexo feminino, consideram essas mulheres pessoas doentes, mentirosas, histéricas, melindradas. O que é o legado de um tempo, não tão remoto, em que, perante a lei, a mulher era tida como irresponsável, frívola, inferior. 

Na França, até 1945, ela não tinha o direito de voto (como os negros americanos, até os anos 70). Não podia abrir uma conta em banco sem autorização escrita do marido! Há três quartos de século a lei recuperou sua razão e decidiu que as mulheres são iguais aos homens. Antes eram apenas seres encantadores, belas, que sabiam fazer algumas pequenas coisas, como filhos e lavar a louça. Hoje, os homens começam a acreditar (porque também progrediram) que as mulheres também são inteligentes, muitas vezes mais do que eles.

Seria temerário dizer que no caso de alguns policiais, o “cérebro reptiliano” continua impregnado daquelas bobagens que tinham no século 19 e, ainda hoje, estão arraigadas em algumas inteligências débeis?

Essa indiferença de determinados policiais está na origem de alguns dramas. (Vale acrescentar que a Justiça também costuma ser pusilânime, sonolenta, ou desprovida de conhecimentos). O comportamento de certos policiais tem um segundo efeito, terrível: as mulheres, conscientes de que sua infelicidade só vai provocar ceticismo na polícia, às vezes acrescido de sarcasmos, preferem sofrer, às vezes morrer, em silêncio.

O governo decidiu incluir essa infâmia na sua agenda. E pretende realizar uma ampla reunião, agrupando ministros, policiais, assistentes sociais, organizações femininas, para finalmente refrear esses assassinatos (sem falar de mulheres feridas gravemente, que são bem mais numerosas). A reunião está marcada para 3 de setembro.

Na manhã de segunda-feira, uma feminista reagiu: “3 de setembro?”

Até lá, 30 mulheres terão tempo de ser assassinadas”. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

 

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