Imagem Gilles Lapouge
Colunista
Gilles Lapouge
Conteúdo Exclusivo para Assinante

Era de ouro

Boris Johnson conseguiu liderar o divórcio com a União Europeia em poucas semanas, ao passo que aquela que o precedeu no cargo de primeiro-ministro, Theresa May, fez o diabo, gritou, implorou e chorou por três anos para, no final, desistir.

Gilles Lapouge*, O Estado de S.Paulo

21 de dezembro de 2019 | 06h49

Boris Johnson é um homem apressado. Dez dias depois que o Brexit foi finalmente conquistado, ele escreveu o “discurso da rainha”, que a rainha Elisabeth leu, como dita a tradição. Neste discurso, Johnson diz que o Reino Unido, quando enfim desamarrar os inúmeros laços que atou em 40 anos de convivência com a Europa e estiver libertada de seus desejos e decisões, vai botar tudo para funcionar, de imediato.

A propósito, ele nos comunicou uma boa notícia. Explicou que o Reino Unido está prestes a entrar em uma nova “era de ouro”. O problema é que as “eras de ouro”, em geral, não duram muito. As que os homens desenvolveram (os falanstérios, as casas de felicidade, etc.) estão desaparecendo muito rapidamente. Os habitantes desses “Edens” logo brigam e se separam, como na Colônia Cecília, no Brasil.

Por outro lado, as “eras de ouro” que os poderes supremos tentaram desenvolver não foram mais encorajadoras. No começo, tudo novo, tudo lindo. Tem um jardim das delícias, uma árvore do conhecimento, animais gentis, pássaros belíssimos. E dois habitantes.

Um homem e uma mulher, o que era bom. Mas eles dizem que vão se amar, e esta não é uma boa ideia. O Éden fecha as portas.

O projeto de Boris Johnson tem uma outra falha. Apenas cinco anos para construir esta era de ouro. Os especialistas em Éden dizem que é muito pouco. Eles sabem que são necessários muitos séculos para o Éden alcançar velocidade de cruzeiro. 

É verdade que Boris Johnson é um homem rápido. Ele conseguiu liderar o divórcio com a União Europeia em poucas semanas, ao passo que aquela que o precedeu no cargo de primeiro-ministro, Theresa May, fez o diabo, gritou, implorou e chorou por três anos para, no final, desistir.

Outro exemplo dessa velocidade tão cara a Johnson: ele abrirá uma nova negociação para resolver os detalhes das futuras relações econômicas e geopolíticas entre Londres e a Europa. Os europeus acham que o trabalho não será concluído até o final de 2022. O primeiro-ministro britânico não quer esperar tanto assim. Prefere concluir esse trabalho em alguns meses. Tudo estará terminado no final de 2020.

Esquerda.

Todo mundo notou que o programa furtivamente revelado de Johnson é muito mais permeável às ideias de esquerda do que se esperava. Alguém poderia jurar que, vendo os trabalhistas prostrados por sua derrota recente, Boris Johnson se sentiu no dever de se apropriar de seus restos mais saborosos.

Em resumo, a primeira intervenção de Boris Johnson após o Brexit foi considerada bem-sucedida. Brilhante, determinada e com uma razão de ser: acabar com Theresa May e o desastroso período de três anos inúteis. O reino se reergueu. Ele provou ser digno da grande epopeia que é a história do Reino Unido. É certo que são apenas intenções e palavras – e já se sabia que Johnson era um ótimo orador. Um ótimo falador também. Hoje ele nos forneceu informações adicionais: reabrirá as portas da era de ouro. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

*É correspondente em Paris

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.