FOTO TIAGO QUEIROZ/ESTADÃO
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‘Era de reformas de mercado na China chegou ao fim’

Sem um plano de sucessão para Xi Jinping, questão é como o país evitará se tornar uma ditadura personalista, diz economista sócio-fundador da consultoria Gavekal Dragonomics

Entrevista com

Arthur Kroeber

Cláudia Trevisan, Correspondente / Washington, O Estado de S.Paulo

26 Outubro 2017 | 05h00

O período de reformas iniciado por Deng Xiaoping, em 1978, acabou e deu lugar à era Xi Jinping, marcada pela ampliação da influência do Partido Comunista na sociedade, maior interferência do Estado na economia, menor ênfase no ritmo de crescimento e estruturação de uma tecnocracia encarregada da gestão econômica. A avaliação é de Arthur Kroeber, sócio-fundador da consultoria Gavekal Dragonomics e autor do livro China’s Economy: What Everyone Needs do Know (Economia Chinesa: O que Todo Mundo Precisa Saber). Para ele, um dos riscos da perpetuação de Xi no poder é a China se tornar uma ditadura personalista. A seguir, trechos da entrevista.

Quais os resultados mais importantes do congresso do PC?

Xi Jinping se fortaleceu ao não indicar um óbvio sucessor e ao preencher o Politburo com aliados. Também propôs a criação de instituições robustas de proteção ambiental, manejo de recursos naturais e combate à corrupção. Foi dada grande ênfase à liderança do partido e ficou claro que o PC está acima do governo. Há ainda uma mudança de prioridades, da economia para uma agenda mais ampla de desenvolvimento e bem-estar social.

Não é uma contradição Xi fortalecer instituições e parecer disposto a desrespeitar uma delas, que é o limite de dois mandatos?

Sim, essa é a contradição principal. Ele tem uma agenda de fortalecimento de instituições, ao mesmo tempo em que fortalece seu próprio poder. A leitura otimista é que Xi tem uma visão de longo prazo e quer instituições duradouras, mas acredita que isso não é possível sem forte liderança agora. 

A China ficará mais autoritária?

Sim. Caminhamos nessa direção. A fala-chave do discurso de Xi é a de que o PC deve ter papel de liderança em todos os aspectos da sociedade e em todos os lugares do país. Desde que Mao (Tsé-tung) morreu não houve uma personalização da liderança. Não é uma ditadura. Há um sistema que opera segundo certas normas, práticas e instituições e tem um mecanismo de transferência de poder de uma geração para a outra. Em muitos aspectos, a agenda de Xi é fortalecer esse sistema burocrático e autoritário. Mas, dado que não há um claro plano de sucessão para ele próprio, a questão é como eles evitarão que a China se transforme em uma ditadura personalista. Nós ainda não temos a resposta para isso.

Quais os principais riscos?

Há pressões no sistema financeiro, mas é algo que o governo pode conter. Xi tem essa visão de que a maneira correta de gerir a economia é ter um forte papel do Estado, com estatais enormes. Eles não têm agenda para privatizar essas empresas nem submetê-las a mais concorrência. Concorrência aumenta produtividade e eficiência. Meu temor é que em sete ou oito anos, a China tenha uma economia com um potencial de crescimento cada vez menor. Ao lado disso, há o fim do superciclo de urbanização e o rápido envelhecimento da população. Mas é difícil ver riscos no curto prazo. 

Há espaço para reformas econômicas?

Não. O momento de todo mundo abandonar a palavra reforma. Ela é associada a questões específicas, como liberalização, ampliação das forças de mercado, aumento de propriedade privada. Estamos nos movendo de uma era de reformas de mercado para uma era de administração tecnocrática da economia. Se houver razões específicas para ampliar a abertura, eles farão. Mas não estou convencido disso.

 

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