Henry Chirinos/EFE
Henry Chirinos/EFE

Era do petróleo chega ao fim na Venezuela

Refinarias enferrujam, receitas com combustível despencam e consumidores enfrentam longas filas por um pouco de gasolina

Redação, O Estado de S.Paulo

08 de outubro de 2020 | 04h00

CABIMAS, VENEZUELA - Pela primeira vez em um século, não há equipamentos para a exploração de petróleo na Venezuela. Os poços que permitiam o acesso às maiores reservas do mundo foram abandonados ou deixados para queimar gases tóxicos com um clarão alaranjado sobre pequenas cidades. As refinarias que processavam o óleo para exportação não passam de montes de metal enferrujado, vazando petróleo que mancha de preto as praias e cobre a superfície do mar com um brilho oleoso.

A escassez de combustível levou o país à paralisação. Em todos os postos de gasolina, as filas se estendem por quilômetros. O colossal setor petrolífero da Venezuela, que dava vida ao país e alimentou o mercado internacional de energia por um século, está praticamente parado. A produção foi reduzida a um filete em razão de anos de má administração e pelas sanções americanas. O colapso deixa uma economia destruída e o ambiente devastado, afirmam alguns analistas, decretando o fim da era da Venezuela como fornecedora de energia.

“Os dias da Venezuela como um país petrolífero acabaram”, disse Risa Grais-Targow, analista do Eurasia Group, consultoria de risco político. O país, que dez anos atrás era o maior produtor da América Latina, com uma receita de cerca de US$ 90 bilhões por ano com as exportações, no final deste ano, deverá faturar líquidos apenas US$ 2,3 bilhões – menos do que o montante agregado que os imigrantes venezuelanos enviarão para casa para sustentar suas famílias, segundo Pilar Navarro, economista de Caracas.

Durante o boom do petróleo, a PDVSA, estatal petrolífera, inundava os moradores das cidades produtoras com benefícios que incluíam alimentos grátis, acampamentos de verão e brinquedos natalinos, além da construção de hospitais e escolas. Agora, dezenas de milhares de operários da companhia falida trabalham no desmantelamento das instalações da companhia em busca de ferro velho, ou tentam vender seus característicos macacões com o logo da companhia para conseguir algum dinheiro.

O fim da função central do petróleo na economia da Venezuela é uma reviravolta traumática para uma nação que, em muitos sentidos, se definia como um Estado petrolífero. Depois que as principais reservas foram descobertas perto do Lago Maracaibo, em 1914, os petroleiros dos Estados Unidos chegaram em grande número à Venezuela. 

Nos anos que se seguiram, apesar das receitas abundantes do petróleo, a Venezuela enfrentou uma montanha russa de endividamento recorrente e crises financeiras. A riqueza não contribuiu para reduzir a corrupção ou a desigualdade. Nos anos 90, o ex-paraquedista Hugo Chávez apareceu no cenário nacional prometendo uma revolução que colocaria o petróleo venezuelano para trabalhar para sua maioria pobre.

Logo depois de ser eleito presidente, em 1998, Chávez apropriou-se da respeitada companhia petrolífera estatal, demitiu cerca de 20 mil profissionais, estatizou ativos petrolíferos estrangeiros e permitiu que seus aliados pilhassem as receitas.

O conturbado setor mergulhou em queda livre no ano passado, quando os EUA acusaram o sucessor e protegido de Chávez, o presidente Nicolás Maduro, de fraude eleitoral, e impuseram severas sanções. Em pouco tempo, os parceiros da Venezuela sumiram. Agora, mais de 5 milhões de venezuelanos, ou 1 em cada 6 habitantes, deixaram o país desde 2015 e vivem exilados no exterior. / NYT, TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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