Cassandra Klos/NYT
Cassandra Klos/NYT

'Era melhor não ter vindo’: alterações nos vistos dos EUA deixam estudantes no limbo

Diretriz do governo Trump estipulou que os alunos cujas aulas migraram totalmente para plataformas online tenham seus vistos cancelados e sejam obrigados a sair do país

Megan Specia and Maria Abi-Habib, The New York Times

11 de julho de 2020 | 07h30

LONDRES - Oliver Philcox estava chegando ao fim de seu primeiro ano de estudos de astrofísica na Universidade de Princeton quando começou o surto de coronavírus. As aulas foram interrompidas em março e depois transferidas para a internet. Em maio, ele decidiu viajar para casa, na Grã-Bretanha.

“No longo prazo, foi uma péssima ideia”, disse Philcox, 24 anos. “Mas achei que conseguiria voltar em setembro”.

Agora, Philcox e muitos outros estudantes internacionais estão questionando seu retorno às instituições americanas, depois que uma diretriz do governo Trump estipulou que os alunos cujas aulas migraram totalmente para plataformas online tenham seus vistos cancelados e sejam obrigados a sair dos Estados Unidos.

Muitas universidades consideram que a mudança é política – uma tentativa de pressioná-las a reabrir, em vez de continuar oferecendo aulas online durante a pandemia. Para alguns estudantes internacionais, a diretiva gera problemas de logística e incertezas. Mas, para outros – principalmente aqueles cujos países de origem estão envolvidos em conflitos ou têm tecnologias de comunicação insuficientes para as aulas online – a decisão tem o potencial de atrapalhar suas vidas e comprometer drasticamente seus futuros.

O plano do governo Trump de exigir aulas presenciais para estudantes internacionais afetaria cerca de 1 milhão de alunos, de acordo com dados do relatório Portas Abertas sobre o intercâmbio educacional internacional de 2019. A China envia o maior número de estudantes – com cerca de 370 mil matriculados nas universidades americanas em 2018-19 –, seguida pela Índia, com pouco mais de 200 mil estudantes matriculados no período.

À medida que a realidade se impôs, aumentou a indignação de alunos do mundo todo, que agora correm o risco de não conseguirem retornar aos Estados Unidos ou mesmo de não poderem permanecer no país para concluir seus estudos. Muitos estão repensando se valeu a pena a escolha de se matricular em uma instituição americana, apesar da experiência e do prestígio.

Macarena Ramos Gonzalez, espanhola que está chegando ao fim de um doutorado no programa de fisiologia aplicada da Universidade de Delaware, foi franca: “Se eles realmente não me querem aqui – e o governo deixou isso bem claro, de várias maneiras – acho que era melhor não ter vindo”.

A decisão destaca uma ampla desconexão entre a diversidade que a maioria das universidades busca entre estudantes e docentes e um governo que evita esses princípios, disse ela.

Centenas de milhares de estudantes e seus familiares assinaram petições exigindo que o governo repensasse a decisão e instando suas universidades a proteger os estudantes estrangeiros. Algumas universidades estão reavaliando suas políticas de reabertura para o outono, na tentativa de possibilitar algumas aulas presenciais.

Harvard e o Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) entraram com um recurso contra o governo Trump em um tribunal federal para suspender a diretiva, argumentando que a diretriz é política e prejudicará o ensino superior dos Estados Unidos, e outras universidades tentaram aliviar os temores dos alunos. Mas muitos continuam preocupados.

A diretiva também causou confusão, pois não está claro se algumas universidades poderão oferecer aulas presenciais ou se as restrições se aplicam à pesquisa em nível de pós-graduação.

Para alguns estudantes internacionais, os Estados Unidos têm sido um paraíso que proporciona segurança contra os conflitos de seus países de origem e alternativa para uma infraestrutura que não comporta a educação remota. Mas essa sensação de segurança agora se perdeu.

Na cidade natal de Ifat Gazia, na Caxemira, o governo da Índia cortou o acesso à internet em agosto do ano passado, uma das medidas que visam a fortalecer seu domínio sobre o território disputado. Embora o serviço tenha sido restaurado em janeiro, apenas o 2G está disponível, o que torna quase impossível fazer chamadas pelo Skype, muito menos carregar o vídeo que seria necessário para ela participar de aulas via Zoom.

Gazia chegou aos Estados Unidos em agosto, no mesmo momento em que a Índia reprimia sua região. Ela não pôde ligar para os pais para avisar que havia chegado em segurança, pois o governo indiano cortara o serviço de telefones fixos e celulares na Caxemira.

“Eu me senti sortuda quando aterrissei”, disse Gazia. “Mas, quando chegou essa ordem nesta semana, o que senti foi desespero”.

Ela observou que o ensino superior costuma ser um caminho para os Estados Unidos atraírem trabalhadores altamente qualificados.

“É isto que faz dos Estados Unidos um grande país”, disse ela. “Mas muitos americanos pensam que estamos aqui apenas para tirar vantagem do país deles. Eles não sabem quanto contribuímos”.

Para alguns, já não vale a pena gastar tanto dinheiro e passar tanto estresse. Andres Jaime, 48 anos, cujo filho de 19 anos é aluno da Berklee School of Music em Boston, disse que decidiu que ele adiaria seus estudos e voltaria à Colômbia.

Jaime disse que já havia pedido à universidade que baixasse as taxas para o próximo semestre “porque a experiência online não era a mesma coisa”, mas a universidade recusou. A diretiva do visto reforçou ainda mais a resolução de que o filho deveria voltar para casa.

Outros estudantes começaram a avaliar outras opções, como Andy Mao, 21 anos, de Xangai, que estuda biologia na Universidade de Nova York. Ele estava se preparando para o Graduate Record Exam (o GRE, uma prova cuja nota serve de critério para admissão em programas de mestrado e doutorado) quando ouviu a notícia do visto.

Este seria seu último ano no programa de graduação, e ele vinha planejando mais anos de estudos nos Estados Unidos por causa de seu legado de pioneirismo em pesquisa. Mas, agora, ele disse que acrescentaria universidades do Canadá e de Cingapura à sua lista.

“Eu ainda gosto deste país”, disse ele. “Mas, se Trump for reeleito, enfrentaremos uma enorme incerteza”.

Em muitos casos, alunos de pós-graduação e doutorado têm cônjuges e filhos nos Estados Unidos, o que significa que a diretiva também resultará no desenraizamento de famílias inteiras. Em alguns casos, as crianças serão expulsas do país em que nasceram, o único país que já conheceram.

Entre esses estudantes está Naette Lee, que faz doutorado em comunicação na Universidade de Maryland. Lee, 38 anos, natural de Trinidad e Tobago, mora com o marido, que é belga, e o bebê, nascido nos Estados Unidos e cidadão americano. Eles não poderiam viajar juntos para a Europa por causa da restrição a viajantes não residentes dos Estados Unidos.

E, se Lee precisar voltar para casa, ficará separada da família – Trinidad e Tobago proibiu a entrada de estrangeiros no país durante a pandemia, proibição que se estenderia a seu marido e filho.

“Não é só a experiência no campus”, disse ela. “É deixar nossas vidas para trás”. / TRADUÇÃO RENATO PRELORENTZOU

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