Era republicana pode estar no fim

Assim como os processos criminais, os importantes jogos de futebol ou as brigas nos casamentos, a campanha presidencial nos Estados Unidos envolve tanto questões explícitas quanto implícitas. As questões explícitas são aquelas abordadas continuamente pelos candidatos: a desordem no Iraque, a ameaça de ataques terroristas, a crise do sistema de saúde e assim por diante. As questões implícitas são aquelas que os candidatos relutam em discutir, mas não estão muito distantes da superfície dos debates. Elas são percebidas em profundidade pelos partidários de ambos os lados.São questões que têm a ver com o ''''estado de espírito'''' da sociedade em uma época de eleição e com aquilo que o resultado eleitoral diz sobre grandes transformações históricas. Por exemplo, a eleição britânica de 1945 confirmou o desejo dos eleitores por uma reforma social tão profunda que chegaram ao ponto de descartar um grande herói nacional. Similarmente - embora na outra direção, ideologicamente falando -, os eleitores americanos deram seu recado em 1980, quando votaram em Ronald Reagan para a Casa Branca. Sua vitória, esmagadora, indicava o fim de uma era e o início de outra.Teremos um ano similar em 2008? A questão está nas mentes e bocas de muita gente em Washington. Os liberais esperam que a resposta seja sim, enquanto os conservadores temem a mudança (e o pessimismo dos conservadores parecem mais uniforme do que o otimismo dos democratas).ORIGENSO ''''movimento conservador'''' moderno nasceu nos anos 1950. Por causa de seus fundadores, homens como William F. Buckley Jr. e Russell Kirk diziam que seus predecessores não eram os políticos, mas pensadores como Edmund Burke, Friedrich Hayek e Ludwig von Mises. O movimento conservador não tinha, em sua essência, um histórico de experiência política. Era uma coisa nova.Em 1964, os conservadores conseguiram lançar um candidato à presidência, Barry Goldwater, mas precisaram de mais 16 anos para conseguir eleger um presidente: Ronald Reagan. E passaram-se mais 14 anos para que os republicanos, liderados por Newt Gingrich, tomassem o controle da Câmara dos Representantes.Durante todo esse tempo, o americano ''''médio'''' - ou seja, aquele que não é político - não chegou a ter uma experiência profundamente negativa com o movimento conservador. Não foi exatamente uma idade dourada, como os conservadores hoje dizem que foi. Por exemplo, Reagan deixou o cargo com um índice de aprovação inferior ao que tinha Bill Clinton em seus últimos momentos na Casa Branca.EXPERIÊNCIA POSITIVANo entanto, a maioria achou que a experiência com um governo conservador foi mais positiva do que negativa. Reagan cortou impostos, afrontou os russos e fez com que as pessoas se sentissem satisfeitas com o seu país.Até Gingrich e seu bando - antes de ficarem marcados pela obsessão que tinham pela vida sexual de Clinton - foram reconhecidos pelo eleitor médio como sendo aqueles que acabaram com a sujeira e a corrupção em Washington.E então veio Bush. A princípio, as coisas foram sendo conduzidas muito bem e o prognóstico do guru de Bush, Karl Rove, de que uma maioria conservadora crescia unida parecia fazer sentido. Agora, tudo isso ruiu pelas razões que conhecemos. Mas ainda não sabemos o que exatamente vai acontecer.Ou seja, os americanos, pela primeira vez, experimentaram um governo conservador que falhou. Mas que lição devem tirar disso? Que o próprio conservadorismo está exaurido e sem respostas para os problemas que os americanos e o mundo enfrentam hoje? Ou concluirão que o problema não é o conservadorismo em si, mas apenas Bush, e um conservadorismo competente e honesto cairia muito bem em seguida?Os conservadores e os candidatos republicanos à presidência esperam que a conclusão seja essa. Eles endossam amplamente e, em alguns casos, prometem até mesmo expandir as políticas adotadas pelo governo Bush, particularmente a promessa infame do candidato republicano Mitt Romney de ''''dobrar'''' de tamanho a prisão da base americana de Guantánamo, na ilha de Cuba.Como Bush, eles prometem que os cortes de impostos, a desregulamentação e um governo mais enxuto solucionarão todos os problemas domésticos. Mas tentam distinguir-se do presidente quanto à competência. Romney chama a atenção para o seu sucesso corporativo. Rudy Giuliani ressalta suas façanhas como prefeito de Nova York.Os democratas não são tão categóricos em oposição a tudo isso, ao contrário do que se poderia esperar. Eles evitam o termo ''''liberal'''' e não criticam frontalmente o governo conservador. Dito isso, porém, todos os principais candidatos democratas têm como base plataformas vigorosamente progressistas.No caso da assistência médica, da energia e do aquecimento global, todos prometem dar um rumo muito diferente para o país. Hillary Clinton passou para a esquerda de seu marido em assuntos de comércio exterior. Mesmo considerando sua prudência inata e sua retórica agressiva em política externa, é justo dizer que Hillary, Barack Obama e John Edwards estão defendendo com vigor uma inequívoca ruptura ideológica.Mas a campanha só vai esquentar no segundo semestre do próximo ano . Então, os republicanos dirão aos eleitores que o candidato democrata está propondo programas que sugarão trilhõe s de dólares e afirmarão que, se ele for eleito, aumentará inevitavelmente os impostos para poder financiá-los. O candidato democrata precisará manter sua posição e, sem deixar de lado a questão dos impostos, terá de apresentar a visão de um tipo diferente de sociedade. Há indicações de que 51% dos eleitores podem estar dispostos a aceitá-la.TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO*Michael Tomasky, jornalista e escritor americano, é colunista do ''''Guardian''''

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