Mustafa Kamaci/Turkish Presidential Press Office/Handout via Reuters
Mustafa Kamaci/Turkish Presidential Press Office/Handout via Reuters

Erdogan abranda sua posição para encontro com Biden mirando relações com Ocidente

Alvo de sanções por negociação militar com a Rússia, Turquia busca novas abordagens com os EUA

Carlotta Gall/ The New York Times, O Estado de S.Paulo

15 de junho de 2021 | 12h00

Nos últimos quatro anos, o presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, vem esmagando seus adversários domésticos abertamente e se aproximando de Moscou, ao mesmo tempo em que concede contratos governamentais preferenciais a seus aliados e envia suas tropas para onde bem entende na região.

A administração do ex-presidente Donald Trump fez vista grossa, na maior parte do tempo. Mas quando chegar a Bruxelas para uma reunião crítica da Otan, na segunda-feira, 14, Erdogan vai encarar uma administração Biden decididamente mais cética. A mesma coisa se dará com outros líderes ditatoriais antes reforçados por Trump.

O presidente russo, Vladimir Putin, que terá um encontro com Joe Biden na quarta, 16, vem reagindo à nova ordem com uma atitude ainda mais beligerante, reprimindo abertamente quaisquer sinais de oposição interna e concentrando tropas na fronteira da Ucrânia, num gesto de ameaça à segurança ocidental.

Para Erdogan, porém, as coisas não são tão simples. Graças ao coronavírus e à sua má gestão econômica, ele agora enfrenta tensões domésticas graves, com inflação e desemprego crescentes e uma lira perigosamente enfraquecida que corre o risco de deslanchar uma crise de dívida.

Assim, Erdogan começou a abrandar sua abordagem, já tendo suavizado posições sobre várias questões na esperança de receber investimentos muito necessários do Ocidente —algo que a Rússia não tem condições de oferecer. 

Para tranquilizar os líderes ocidentais, o presidente turco suspendeu a exploração de gás no Mediterrâneo oriental, uma atividade que vinha enfurecendo os aliados da Otan, e aborreceu Moscou ao apoiar a Ucrânia contra as ameaças da Rússia e vender drones de fabricação turca à Polônia.

Contudo, Erdogan tem algumas cartas importantes para jogar. A presença da Turquia na Otan, o papel do país como estação intermediária para milhões de refugiados e sua presença militar no Afeganistão —tudo isso lhe conferiu poder real de influência junto ao Ocidente.

Assim, é improvável que o líder turco inverta seu desvio para o autoritarismo, seu relacionamento cada vez mais estreito com Putin e sua aquisição do sofisticado sistema de defesa antiaérea russa S-400, mesmo que isso signifique entrar em choque com a visão de Biden de uma aliança reforçada de democracias.

Uma dúvida é até onde será possível empurrar Erdogan na direção de Biden antes que ele fique frustrado e decida apostar no alinhamento com o Kremlin ou até mesmo com a China, se bem que, tendo sido deixado na mão pelos dois países na questão do suprimento de vacinas, o presidente turco seja suficientemente perspicaz para conservar suas opções abertas.

“Como fazer para não perder a Turquia enquanto você tenta refrear Erdogan?”, questiona Nigar Goksel, diretor de projetos da Turquia no think tank International Crisis Group.

Assim como Biden fez com Putin, sua abordagem inicial a Erdogan tem sido manter distância, procurando evitar desavenças e cuidar dos problemas em níveis diplomáticos mais baixos.

Desde que assumiu a presidência, Biden só conversou uma vez com Erdogan, para informá-lo que os EUA estavam reconhecendo como genocídio o massacre de armênios no Império Otomano. 

Apesar de essa ter sido uma humilhação para Erdogan que em anos anteriores poderia ter suscitado um ataque de fúria, foi recebida com reação moderada, além da promessa de um encontro na cúpula da Otan.

Segundo Goksel, Erdogan está sentindo a frieza da administração Biden. “Enquanto Erdogan procura encontrar uma maneira de avançar, eles estão tentando garantir que ele não conquiste pontos políticos.”

A Turquia precisa urgentemente sair da recessão econômica, agravada pela pandemia, que destruiu sua indústria turística, vital para o país. E está ansiosa para evitar mais sanções americanas, impostas depois de Erdogan ter comprado o sistema de mísseis S-400 da Rússia.

Os problemas econômicos vêm prejudicando a posição política de Erdogan. Ainda faltam dois anos para eleições, mas seus adversários ganharam ímpeto considerável, segundo Ozgur Unluhisarcikli, diretor em Ancara do think tank German Marshall Fund of the United States. Para ele, os turcos votarão conforme estiver a situação da economia, e Erdogan precisa da reunião com Biden nem que seja só por esse motivo.

A mais espinhosa entre a meia dúzia de disputas entre os dois países é sem dúvida a recusa de Erdogan de voltar atrás na aquisição dos mísseis S-400, que fez da Turquia o único país da Otan a receber sanções dos Estados Unidos e a ser tirado do programa de caças F-35.

Erdogan chegou a negociar a compra de uma segunda bateria de mísseis da Rússia. Porém, diante da ameaça de novas sanções, ele parece estar disposto a abrir mão dessa aquisição.

À base de sua aquisição dos S-400s está sua desconfiança em relação a Washington, que ele gostaria de vê-lo substituído. Essa ideia só foi reforçada no ano passado, durante a campanha presidencial de 2020, quando Biden disse que os EUA deveriam apoiar a oposição na Turquia.

Mas há temores de que, se for pressionado demais, Erdogan, que precisa urgentemente de um caça-bombardeiro de quinta geração, acabe comprando Sukhois russos. 

Existe também uma preocupação com cerca de 50 bombas nucleares dos EUA armazenadas na base aérea turca de Incirlik, sob controle conjunto com a Turquia. Erdogan já ameaçou em diversos momentos expulsar os americanos da base.

Washington vem se preparando para contornar a divergência em torno dos mísseis S-400s, enfocando em vez disso as áreas estratégicas sobre as quais os dois países podem concordar: em outras palavras, o Afeganistão, onde a Turquia participa da missão desde 2001, o Iraque e a Líbia.

Por suas razões próprias, a Turquia quer conservar uma presença no Afeganistão, país com o qual tem uma relação de longa data, uma história e uma religião comuns. 

Essa é a razão principal pela qual o enviado especial dos EUA, Zalmay Khalilzad, quando iniciou negociações com o Taleban para a retirada americana, pediu a Erdogan que considerasse a possibilidade de conservar a presença militar nesse país.

Mas com o prazo marcado para essa retirada se aproximando, em julho, Erdogan vem adiando o momento de assumir um compromisso, criando ansiedade nas capitais europeias sobre a manutenção de acesso seguro de suas embaixadas ao aeroporto de Cabul. 

O ministro da Defesa, Hulusi Akar, disse neste mês que a Turquia pode permanecer no Afeganistão se receber apoio político, financeiro e logístico de seus aliados. O Taleban fortaleceu a margem de manobra de Erdogan ao anunciar que as tropas turcas devem deixar o Afeganistão juntamente com o resto das forças da Otan.

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