Adem Altan and Ludovic Marin/AFP
Adem Altan and Ludovic Marin/AFP

Erdogan diz que Macron precisa de um 'exame de saúde mental' pela forma como trata os muçulmanos

Em resposta, Paris convoca embaixador em Ancara; líder turco já havia denunciado como uma provocação as declarações do francês sobre o 'separatismo islâmico' e a necessidade de 'estruturar o Islã' na França

Redação, O Estado de S.Paulo

24 de outubro de 2020 | 10h54
Atualizado 27 de outubro de 2020 | 20h17

ISTAMBUL - O presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, criticou neste sábado, 24, o líder francês, Emmanuel Macron, por suas políticas para os muçulmanos na França. Segundo Erdogan, Macron precisa de um "exame de saúde mental" pela maneira hostil como trata essa comunidade em seu país. Em resposta, Paris convocou seu embaixador em Ancara. 

"Qual o problema de Macron com o Islã e os muçulmanos? Ele precisa de um tratamento de saúde mental", disse Erdogan em um discurso durante um congresso do seu partido Justiça e Desenvolvimento (AKP), transmitido pela TV. "O que se pode dizer de um chefe de Estado que trata milhões de membros de minorias religiosas em seu país desse jeito? Em primeiro lugar, (ele precisa) um exame de saúde mental."  

A presidência francesa classificou de "inaceitáveis" as declarações de Erdogan e convocou para consultas seu embaixador em Ancara,

uma prática diplomática de um governo para manifestar seu descontentamento. "As palavras do presidente Erdogan são inaceitáveis. O excesso e a grosseria são um método. Exigimos que Erdogan mude o curso de sua política, porque ela é perigosa de todos os pontos de vista. Não entramos em polêmicas inúteis e não aceitamos os insultos", informou a presidência à agência France Presse

Há duas semanas, Erdogan denunciou como uma provocação as declarações de Macron sobre o "separatismo islâmico" e a necessidade de "estruturar o Islã" na França. Um projeto de lei sobre o combate "aos separatismos" na França, que aponta para o Islã radical, deve ser apresentado no início de dezembro. 

O objetivo do projeto é reforçar o laicismo e consolidar os princípios republicanos na França e aborda vários pontos que podem gerar tensões com a Turquia, como o controle reforçado do financiamento das mesquitas ou a proibição de que os ímãs se formem no exterior.

França foi abalada recentemente pela decapitação, no dia 16, de um professor de história por um radical islâmico, que queria vingar o uso de caricaturas do profeta Maomé por ele em uma aula sobre liberdade de expressão.

Erdogan é um muçulmano devoto e desde que o AKP, de raízes islâmicas, chegou ao poder pela primeira vez em 2002, ele tem procurado colocar o Islã na corrente principal da política na Turquia, um país predominantemente muçulmano, mas secular.

O presidente turco disse em 6 de outubro, após os comentários iniciais de Macron sobre o "separatismo islâmico", que as declarações eram "uma clara provocação" e mostravam a "impertinência" do líder francês. 

A Turquia e a França são membros da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), mas têm divergências sobre várias questões como a política na Síria e na Líbia, a jurisdição marítima no Mediterrâneo Oriental e o conflito em Nagorno-Karabakh (entre Armênia e Azerbaijão).

Erdogan e Macron discutiram suas divergências em um telefonema no mês passado e concordaram em melhorar os laços e manter os canais de comunicação abertos./AFP e REUTERS 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.