‘Erdogan está no fim de sua carreira’, diz professor

Eleição regional, hoje, definirá se premiê turco terá cacife para mudar regras e mandar, agora como presidente

Entrevista com

Renata Tranches, O Estado de S.Paulo

30 de março de 2014 | 02h06

Após mais de uma década no poder na Turquia, o primeiro-ministro, Recep Tayyip Erdogan, acumulou prestígio interna e externamente. Mas, desde sua última vitória eleitoral, em 2011, medidas controvertidas e envolvimento em denúncias de corrupção desgastaram a imagem do líder e ameaçam agora seus planos de continuidade no poder, na opinião do professor Gareth Jenkins, veterano especialista sobre as questões turcas do Instituto de Políticas de Desenvolvimento e Segurança, em Istambul. "A raiva direcionada a Erdogan é sem precedentes", afirmou Jenkins, em entrevista ao Estado.

As eleições do próximo domingo serão um teste para Erdogan?  As eleições locais são cruciais para o que vai ocorrer no futuro da Turquia. Apesar de, teoricamente, se tratar da escolha de autoridades locais, Erdogan lida com a votação como um referendo sobre seu governo.

Por que?

É sabido que Erdogan planeja concorrer à presidência, em agosto. A Turquia tem um sistema parlamentar, mas Erdogan espera que, caso seja eleito presidente, possa transferir um pouco do seu poder como premiê para o cargo. Além disso, espera usar sua autoridade dentro do Partido da Justiça e Desenvolvimento (AKP) para continuar mandando no país, garantindo que um nome leal e subserviente o suceda no cargo de primeiro-ministro.

Qual a perspectiva para o AKP?

Se o AKP se sair bem na votação, provavelmente, assegurará pelo menos 40% dos votos nacionais e continuará no controle das maiores cidades do país, como Istambul e Ancara. Assim, Erdogan acredita que terá capital suficiente para seguir em frente com sua ambição presidencial. Agora, se o AKP for mal, Erdogan será, provavelmente, forçado a abandonar esse projeto e até ser confrontado dentro do partido.

É o pior momento para a carreira política de Erdogan?

Erdogan costumava ter os melhores instintos entre os políticos de sua geração. Ele sabia como se conectar com as multidões. Mas a terceira vitória do AKP na eleição geral de 2011 o tornou confiante demais.

O que ocorreu a partir daí?

No fim de 2012, ele intensificou seu esforço para remodelar a sociedade turca em uma linha condizente com suas crenças muçulmanas sunitas. O resultado foi o acúmulo de pressão que explodiu com os protestos do Parque Gezi, em 2013.

Quais as consequências do protesto para ele?

Apesar da mobilização do Parque Gezi ter se dispersado, Erdogan não aprendeu com seus erros. Há duas semanas, Berkin Elvan, um garoto de 15 anos ferido nos protestos quando ia comprar pão para sua família, morreu após nove meses em coma. Desde então, Erdogan tem bloqueado qualquer tentativa de investigação sobre o caso. Após a morte, ele recusou-se até a emitir um comunicado de condolências para a família.

Como isso tem se refletido?

Nos últimos meses, oponentes políticos de Erdogan têm divulgado dezenas de gravações telefônicas que, aparentemente, mostram o premiê e seus assessores mais próximos envolvidos em corrupção. Esse crime tem feito parte do sistema político do país e poucos turcos se importam com ele ao ponto de ir para as ruas. No entanto, a morte de uma criança os deixa revoltados.

Por isso os atos das últimas semanas?

A raiva direcionada a Erdogan é sem precedentes. É provável que o AKP ainda vença as eleições locais, mas Erdogan tem se tornado uma figura tão polarizadora que, se ele concorrer à presidência, o resultado provável será o de uma severa instabilidade política interna. Esse parece ser o início do fim da era Erdogan. Quando chegaremos a esse fim é incerto. Isso talvez leve alguns meses ou anos, mas Erdogan entrou para a fase final de sua carreira política.

Qual a conexão com medidas conservadoras adotadas por ele e o controle da internet?

Inicialmente, apesar de Erdogan ter defendido criar uma sociedade mais conservadora com base nos valores islâmicos, suas políticas não afetavam diretamente o dia a dia. Isso começou a mudar no fim de 2012, quando ele passou a ditar até como as pessoas deveriam viver, o que elas bebiam, que programa de televisão assistir e quantos filhos deveriam ter. As tensões, gradualmente, cresceram até explodir nos protestos do parque. Eles sublinharam um ressentimento que nunca se desfez. Era um exemplo do que poderia reunir as pessoas nas ruas. A brutalidade com que os policiais atacaram os manifestantes, resultando em sete mortes e mais de 10 mil feridos - significa que foi algo importante. A morte de Berkin transformou-se num gatilho.

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