EFE/EPA/ERDEM SAHIN
EFE/EPA/ERDEM SAHIN

Erdogan é reeleito e diz que Turquia deu lição de democracia ao mundo

Oposição diz que competição não foi justa, mas reconhece vitória de presidente; eleições são especialmente importantes, pois representam a mudança do atual sistema parlamentar para presidencialista, no qual o chefe de Estado concentra todo o poder do Executivo

O Estado de S.Paulo

24 de junho de 2018 | 15h48
Atualizado 24 de junho de 2018 | 20h40

ISTAMBUL - O presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, foi reeleito neste domingo, 24, em primeiro turno para um novo mandato de cinco anos, com poderes consideravelmente reforçados, informou a mídia do país. Antes mesmo do fim da apuração, Erdogan proclamou sua vitória em um discurso em Istambul e ressaltou que a votação no país deu uma “lição de democracia” para o mundo.

Apurados 97,17% das urnas, Erdogan tinha 52,59% dos votos, informou a agência oficial de notícias Anatolian. O segundo colocado, o oposicionista de centro-esquerda Muharrem Ince, tinha 30,76% dos votos. O curdo Selahattin Demirtas, também de esquerda, contava com 8,15% e a conservadora Meral Aksener somava 7,41%.

O Supremo Conselho Eleitoral da Turquia não havia confirmado oficialmente a reeleição de Erdogan. Mas o maior partido de oposição, o social-democrata Partido Republicano do Povo (CHP), reconheceu a vitória de Erdogan. “Não foi uma competição justa, mas aceito que Erdogan ganhou”, disse Muharrem Ince à emissora Fox na Turquia.

Antes mesmo de Erdogan se proclamar vitorioso, seus partidários saíram às ruas em diversas partes do país para festejar. Erdogan também destacou a cômoda maioria obtida pela aliança Cumhur (Público), integrada por seu Partido Justiça e Desenvolvimento (AKP, islâmico) – que governa a Turquia desde 2002 – e o direitista Movimento de Ação Nacionalista (MHP). 

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Dos 600 assentos, ao menos 293 ficarão com o bloco. A Aliança Nacional, de Ince, tem 147 vagas garantidas e o partido curdo contará com 66. A extrema direita – que tende a votar com o presidente – deverá ter 49 parlamentares e os conservadores, 45.

Em 15 anos de governo, Erdogan se impôs como o mais poderoso líder turco desde o fundador da República, Mustafa Kemal Ataturk. Transformou a Turquia por meio de megaprojetos de infraestrutura e liberou a expressão religiosa, tornando Ancara um importante ator regional. Mas os críticos acusam o presidente de 64 anos de autoritarismo, especialmente desde a tentativa de golpe de julho de 2016, seguida de grandes expurgos que atingiram os mais diversos setores da sociedade, incluindo opositores e jornalistas, e causaram preocupação na Europa.

O presidente também tem sido alvo da rejeição dos mercados, especialmente pelo excesso de intervenção do governo no banco central do país. Com a inflação acima de dois dígitos, a instituição demorou a subir juros para conter a disparada dos preços e a depreciação da lira.

Segundo o presidente, a hora agora é de deixar de lado as tensões que marcaram o período eleitoral. “Nosso foco é o futuro da Turquia. Vamos manter os esforços para tornar a Turquia mais forte em todos os campos”, afirmou o presidente reeleito. “A segurança nas urnas e na votação, a liberdade de escolha, tudo isso são expressões da democracia. A Turquia, com uma taxa de participação de quase 90%, deu uma lição de democracia ao mundo inteiro.”

O presidente turco havia convocado em abril as eleições presidenciais e legislativas antecipadas. Inicialmente, elas estavam marcadas para novembro de 2019. As eleições são especialmente importantes, pois representam a mudança do atual sistema parlamentar para um regime presidencialista, no qual o chefe de Estado concentra todo o poder do Executivo. Erdogan afirma que essa medida é necessária para assegurar a estabilidade no governo, mas seus opositores o acusam de querer monopolizar o poder.

Mortos

Três pessoas morreram e pelo menos 19 foram detidas neste domingo em diferentes incidentes ocorridos durante as eleições presidenciais e parlamentares na Turquia.

Durante um tumulto em um centro de votação na cidade de Erzurum, no leste do país, três pessoas morreram com tiros e outras três ficaram feridas, de acordo com o jornal "Cumhuriyet". Os mortos são dois eleitores e o chefe local do partido de oposição IYI, Mehmet Siddik Durmaz.

Segundo explicou Hüsnü Yilan, do opositor Partido Republicano do Povo (CHP), houve uma briga no centro de votação quando chegaram 24 agentes do Ministério do Interior e depois um jovem membro do partido governante, Justiça e Desenvolvimento (AKP), que pretendiam permanecer no interior do local.

Os filiados ao CHP resistiram e aconteceu uma briga durante a qual, conforme esta versão, os recém-chegados atiraram e mataram Durmaz e dois cidadãos que votavam.

"Primeiro vieram 24 agentes do Ministério do Interior. Não aceitamos, resistimos. Depois veio um jovem cujo nome não sei, do AKP por Erzurum. Também não permitimos que ele ficasse. Houve briga, atiraram", declarou Yilan.

Outro membro do IYI, Ümit Ozdag, ficou ferido após um ataque em um centro de votação em Istambul, onde as forças de segurança detiveram seis pessoas.

Na cidade de Suruç, na província de Sanliurfa, no sudeste do país, três pessoas ficaram feridas após um tumulto em outro centro de votação. Na mesma situação foram feitas três detenções após as forças de segurança descobrirem três sacos cheios de votos selados em um carro.

Em Suruç também houve denúncias de que uma urna tinha sido enchida com votos falsos. O chefe da Comissão Eleitoral Suprema (YSK), Sadi Güven, confirmou que a instituição "tomou as necessárias medidas administrativas e jurídicas", segundo a emissora "NTV".

O opositor CHP denunciou que seus observadores foram expulsos de vários centros de votação de Sanliurfa sob ameaças e golpes.

O Ministério do Interior comunicou a detenção de dez estrangeiros em Agri, no leste do país, sendo três franceses, três alemães e quatro italianos.

De acordo com as autoridades, eles se identificaram como observadores da missão da Organização para a Segurança e a Cooperação na Europa (OSCE), mas não estavam com o credenciamento necessário para poderem vigiar a votação. / EFE, AFP e REUTERS

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