Erdogan luta por mais poder na Turquia

Na primeira eleição direta para presidente no país, premiê quer garantir mais dez anos no poder em um cargo com mais atribuições

RENATA TRANCHES , O Estado de S.Paulo

03 de agosto de 2014 | 02h03

Há 11 anos dominando o cenário político na Turquia, Recep Tayyip Erdogan quer mais. Após três mandatos como primeiro-ministro, ele disputará a presidência na primeira eleição direta para o cargo, no próximo domingo. Para o posto, Erdogan quer levar seu nome e o poder que acumulou nos últimos anos.

Favorito para vencer a disputa no primeiro turno, segundo pesquisas, Erdogan espera ampliar o poder presidencial com uma reforma constitucional. Atualmente, o cargo é meramente representativo. Mas, se conquistar o mandato de cinco anos e se reeleger por mais um, poderá permanecer no poder até 2023. Este será o ano do centenário da fundação da Turquia moderna e Erdogan poderá então ultrapassar seu indealizador, Mustafa Kemal Ataturk, como o líder que mais tempo ficou no poder.

Os planos de Erdogan não são segredo, mas, para alcançá-los, conforme explicou ao Estado o especialista turco do Carnegie Europe, de Bruxelas, Sinan Ulgen, o premiê terá de superar desafios. O primeiro é definir quem ficará no seu lugar, como primeiro-ministro, quando se desligar do cargo.

"Essa é a questão mais desafiadora no momento", afirmou Ulgen, também presidente do Centro de Estudos Econômicos e de Política Externa, de Istambul. Na sua opinião, não há outras alternativas além do atual presidente, Abdullah Gul, para liderar e controlar o Partido Justiça e Desenvolvimento (AKP, na sigla em turco), como Erdogan tem feito nos últimos anos.

A expectativa é a de que Gul atue como aliado enquanto Erdogan tenta fortalecer a presidência. Para Ulgen, o premiê não conseguirá esse objetivo no curto prazo por não ter apoio necessário no Parlamento para aprovar as emendas constitucionais. "Ele reavaliará sua posição após as eleições parlamentares de 2015, quando espera que seu partido obtenha as cadeiras adicionais no Parlamento para alterar a Constituição."

Até lá, segundo Ulgen, Erdogan tentará atuar como chefe de governo, mesmo sendo presidente. "Ele poderia, por exemplo, recorrer a artigos da Constituição nunca usados que lhe permitem chefiar as reuniões de gabinete. Isso permitirá que Erdogan continue dominando o Executivo até as eleições parlamentares do ano que vem."

As eleições presidenciais serão as primeiras com voto direto no país. Por isso, analistas as veem também como um termômetro sobre a popularidade de Erdogan, envolvido em escândalos de corrupção no seu gabinete e alvo de protestos, no ano passado, contra seu governo, cada vez mais conservador.

Uma pesquisa do Pew Research Center mostrou que a Turquia está dividida - 51% estão descontentes com o governo e 44%, satisfeitos. A polarização tem sido uma ferramenta para Erdogan. Se ela torna seu governo mais difícil, por outro lado ajuda a cimentar apoios.

"A polarização na Turquia tem se aprofundado", disse Ulgen, acrescentando que os protestos no ano passado foram reflexos disso. Mas Erdogan, segundo o analista, ainda é o político mais popular do país, assim como seu partido islâmico moderado. O premiê beneficia-se ainda da fragmentação da oposição. Segundo observadores, os outros candidatos têm poucas chances de derrotá-lo.

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