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Erdogan lutou muito e ganhou injustamente

O presidente turco não impediu os adversários de concorrer, mas introduziu mudanças no sistema eleitoral que atuaram em seu favor

Leonid Bershidsky, The Washington Post, O Estado de S.Paulo

26 de junho de 2018 | 05h00

A existência de uma cultura política vibrante e uma forte oposição ao monopólio político dos governantes de longo prazo do país foram as razões da separação entre a Turquia de Recep Tayyip Erdogan da Rússia de Vladimir Putin. Mas, após a vitória de Erdogan nas  eleições presidenciais e parlamentares de domingo, essas diferenças provavelmente serão reduzidas na medida em que a Turquia mergulha em uma versão islâmica do “putinismo”.

Não foi uma vitória particularmente impressionante: Erdogan venceu as eleições  com cerca de 52%  dos votos, segundo resultados preliminares,  enquanto seu Partido Justiça e Desenvolvimento (AKP) perdeu a maioria no Parlamento,  com o nacionalista MHP acumulou cerca de 54% dos votos. Mas isso significa que Erdogan conseguiu se desviar do desafio político mais forte que enfrentou em anos, representado por Muharrem Ince, o candidato do Partido Republicano do Povo (CHP), leigo, de centro-esquerda.

Dados os amplos poderes entregues ao presidente no ano passado em um referendo constitucional, Erdogan terá a oportunidade de dirigir o país  como mais lhe agradar por outros cinco anos. Para a oposição, usando uma analogia do futebol, isso representa cinco anos de jogo sem a bola enquanto o juiz –  o sistema judiciário cada vez mais dependente da Turquia – deixará que o outro lado corra desenfreadamente.

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Caso Ince, o talentoso orador cujos comícios atraíram milhões de pessoas em redutos  relativamente liberais, tivesse conseguido levar Erdogan a um segundo turno, como se esperava, a oposição teria tido a chance de vencê-lo, apesar de tudo que o governante turco fez para o sistema eleitoral pender a seu favor. Os 30% que ele recebeu, segundo a Plataforma para uma eleição Justa, administrada pela oposição, não seriam suficientes para impedir que Erdogan reivindicasse a maioria.

Erdogan considerou a eleição, com cerca de 90% de participação, “uma lição de democracia para o mundo”. Definitivamente não foi. A Organização para a Segurança e Cooperação na Europa (OSCE) descreveu em um relatório preliminar um sistema eleitoral no o qual o partido do governo tinha tido liberdade para introduzir mudanças precipitadas; um mapa com uma divisão arbitrária de distritos eleitorais parlamentares; leis que criminalizavam críticas ásperas ao presidente e limitavam sua  responsabilidade criminal; além de restrições à liberdade de reunião em algumas províncias e perseguição policial de algumas forças da oposição, como o Partido Democrático do Povo, pró-curdos (HDP).

Some-se a isso o controle crescente de Erdogan sobre os meios de comunicação, a prática generalizada de prender jornalistas e blogueiros, dezenas de milhares de prisioneiros políticos (a Rússia de Putin tem apenas 150 conhecidos, segundo a principal organização de direitos humanos do país, a Memorial), relatos de tortura e abuso durante o período de custódia, deixando no ridículo a ideia de a Turquia dar “lições de democracia”.

Ao contrário de Putin, Erdogan não impediu seus adversários de concorrer contra ele nas eleições, e assim suas vitórias eleitorais parecem ter sido conquistadas com maior dificuldade. Mas não se deve levar a sério a imparcialidade desses triunfos. O sistema é manipulado em favor de Erdogan. Desde o fracassado golpe de 2016, ele também acabou com o tradicional papel moderador dos militares no poder político. Com o controle de fato do tribunal constitucional e um judiciário totalmente expurgado após o golpe, Erdogan pode esquecer os controles de equilíbrio entre os poderes.

Não é coincidência que o primeiro-ministro húngaro, Viktor Orban, tenha sido o primeiro a dar os parabéns a Erdogan por sua vitória nas eleições. Orban tem vencido eleições com maior tranquilidade que Erdogan, pois a oposição húngara não conseguiu montar opositores como poderosos como Ince, mas ele tem sido pressionado por instituições da União Europeia, sendo impedido de assumir os tribunais e prender seus opositores com a mesma liberdade desfrutada por Erdogan.

Ainda assim, não há dúvida de que ele acompanha Erdogan com admiração – da mesma forma como líderes esquerdistas e centristas em países europeus vizinhos o observam com alarme. “Se esta eleição tivesse sido realizada adequadamente, Erdogan teria sido obrigado a abandonar o poder”, disse Cem Oezdemir, ex-líder do Partido Verde da Alemanha, de origem turca, após a votação, em que mais de dois terços da grande comunidade turca na Alemanha apoiaram Erdogan.

Para a Europa e para a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), outros cinco anos de Erdogan significam que a Turquia continuará sendo candidata a membro da UE e um aliado ocidental apenas no nome. Ninguém no Ocidente, exceto fãs como Orban, pode confiar no líder turco para qualquer coisa, especialmente porque ele culpa o Ocidente pelos problemas econômicos da Turquia para permanecer popular.

Erdogan vai continuar a tentar fazer crescer a economia por meio de grandes projetos de infraestrutura de valor econômico questionável (que incluem, por exemplo maior aeroporto do mundo e um novo canal de transporte pago, além do Bósforo, que é gratuito para navios). Esse é um modelo semelhante ao de Putin, e, como sob Putin, a economia turca está sob crescente influência do Estado e dos apadrinhados de Erdogan que obtêm lucrativos contratos com o governo.

A ineficiência e a corrupção embutidas em tal sistema tornam o crescimento caro para o público em geral, como a desvalorização da lira nos últimos meses provou. Erdogan só pode justificar isso, como já fez, atacando os EUA e a UE por supostamente tentarem minar a soberania econômica da Turquia. E, ao contrário de Putin, ele não teve uma vasta base de recursos para sustentar sua grande visão econômica: a Turquia é dependente de comércio e investimento nos mesmos países em relação aos quais a retórica de Erdogan é a mais hostil.

A Turquia precisava de uma mudança, mas a capacidade de Erdogan de consolidar o poder evitou isso. Se nenhuma catástrofe econômica ocorrer nos próximos cinco anos para reforçar o poder da oposição derrotada, regime híbrido do país provavelmente se tornará ainda mais autoritário em 2023 e os anos de vitórias estreitas vão acabar para Erdogan e, provavelmente, seus sucessores escolhidos. / TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO

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