Erdogan modera o discurso, mas não dissipa desconfiança

Religioso, premiê turco incomoda setores laicos e abre divisão que se aprofunda na sociedade turca

Gustavo Chacra, O Estadao de S.Paulo

07 de março de 2009 | 00h00

Os opositores já o chamam de "sultão" e dizem que Recep Tayyip Erdogan, primeiro-ministro turco, mostrou sua verdadeira face no debate com o presidente israelense, Shimon Peres, no Fórum Econômico Mundial, em Davos na Suíça.Depois de atacar o líder israelense por causa dos bombardeios na Faixa de Gaza, recebeu uma resposta que não gostou. Pediu uma réplica ao jornalista David Ignatius, do Washington Post, que mediava o debate. Não recebeu e, transtornado, abandonou o palco gritando. No mundo árabe e islâmico, Erdogan - que já vendeu limonada e jogou futebol - tornou-se um herói. Há seis anos no poder como premiê, cada vez mais o líder turco polariza a opinião pública da Turquia, com as camadas religiosas o apoiando e os seculares o atacando. Tido como "populista" pelos seus críticos, ele tem levado ao poder uma elite islâmica totalmente diferente da europeizada classe média e alta turca - na qual o divórcio, bebidas alcoólicas e sexo antes do casamento estão longe de ser um tabu.Erdogan nunca simpatizou com os turcos que defendem os ideais seculares, implementados por Mustafá Kemal Ataturk há mais de oito décadas, e exercem sua força, até hoje, por meio do Exército.Sua mulher usa o véu e ele segue o islamismo quase à risca, jejuando no Ramadã (mês sagrado para os muçulmanos), rezando cinco vezes ao dia e evitando o consumo de álcool.Ao longo dos anos 1990, quando era prefeito de Istambul, tinha um discurso radical, defendendo abertamente o islamismo. Acabou condenado à prisão por colocar em risco a tradição secular da Turquia. Livre, fundou o AKP, uma espécie de reencarnação do islâmico Partido do Bem-Estar, do qual ele fazia parte. Mas a legenda acabou banida. Mais velho, Erdogan adotou um tom moderado e conseguiu chegar ao poder em 2003.

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