Mustafa Kamaci / TURKISH PRESIDENTIAL PRESS SERVICE / AFP
Mustafa Kamaci / TURKISH PRESIDENTIAL PRESS SERVICE / AFP

Erdogan reza primeira oração muçulmana na Santa Sofia após reconversão em mesquita

Muçulmanos comemoram mudança, mas muitos na Turquia a consideram manobra do presidente para melhorar posição política

Carlotta Gall / The New York Times, O Estado de S.Paulo

24 de julho de 2020 | 17h10

ISTAMBUL - O presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, realizou nesta sexta-feira, 24, seu desejo há muito declarado de restaurar a histórica Basílica de Santa Sofia, mais conhecida como Hagia Sophia, para funcionar como mesquita, abrindo para milhares de fiéis muçulmanos, pela primeira vez em quase nove décadas, a magnífica estrutura bizantina construída no século 6 como a maior catedral do mundo.

As multidões começaram a se reunir em torno da Hagia Sophia já nas primeiras horas da madrugada, para acompanhar as orações de sexta-feira, um momento de consagração para Erdogan depois de 18 anos à frente da política turca.

Sob forte segurança policial, os fiéis aguardavam em seus tapetes estendidos pelas ruas e calçadas, cobrindo o rosto com máscaras contra o coronavírus e a cabeça com o que conseguiam improvisar para se esconder do sol escaldante. Todas as ruas de paralelepípedos ao redor da mesquita estavam lotadas, assim como os espaços abertos ao longo do antigo hipódromo onde corriam as bigas romanas.

Erdogan chegou ao meio-dia, usando máscara, e se sentou no chão da mesquita, de cabeça baixa e olhos fechados, para ouvir a melódica recitação do Alcorão, transmitida ao vivo pela televisão nacional. Às 13h, a multidão fez silêncio e se ajoelhou em uníssono enquanto o grande mufti, com as mãos entrelaçadas no punho da espada da conquista, proferia seu sermão.

“Hoje é um dia de festa para nós. Estamos muito felizes”, disse Selahattin Yigiter, um executivo aposentado que estava sentado no tapete de oração junto com sua mulher na calçada da construção de quase 1.500 anos. “Com a pressão do povo muçulmano, ela foi reconvertida."

Mas a atmosfera de celebração entre os fiéis muçulmanos na Turquia contrastava com a angústia e a consternação que a decisão de Erdogan gerou entre cristãos de todo o mundo e entre muitos membros das comunidades acadêmicas e de conservação histórica.

Construída no século 6º pelo imperador bizantino Justiniano I, Hagia Sophia foi por quase mil anos a maior igreja do mundo e o centro da cristandade. Em 1453, o sultão otomano Mehmed II conquistou Constantinopla e converteu o majestoso edifício em uma mesquita: ela se tornou um dos locais mais sagrados do Islã.

Sob Mustafa Kemal Ataturk, que fundou a república turca moderna, Hagia Sophia foi transformada em museu e todos os serviços religiosos foram encerrados. Nos últimos 86 anos, firmou-se como um monumento aos impérios e religiões concorrentes cujas histórias se fundiam, às vezes de maneira um tanto desajeitada, naquele Patrimônio da Humanidade.

Poucas horas antes do evento, o governo anunciou que todo aquele Patrimônio da Humanidade, que engloba vários edifícios históricos próximos, seria fechado para serviços ordinários por 24 horas, o que pegou de surpresa alguns turistas internacionais.

Mas a Hagia Sophia ficaria aberta a noite toda, até a manhã de sábado, para dar aos fiéis a chance de rezar dentro da mesquita, disse Ali Yerlikaya, governador de Istambul, em um noticiário de TV na véspera do evento.

Muitos na Turquia veem o movimento como puro teatro político, parte do esforço de Erdogan para melhorar sua posição, a qual oscilou depois de quase duas décadas de supremacia na política turca e à medida que a pandemia atravancou ainda mais uma economia já instável.

Não há dúvida de que Erdogan e muitos muçulmanos conservadores e nacionalistas turcos ficaram entusiasmados com a decisão.

Muzaffer Demir, gerente de hotel que viajara da capital, Ancara, com sua mulher e a filha de 13 anos para estar presente, descreveu seus sentimentos como “emoção, felicidade e lágrimas”.

Erdogan visitou a Hagia Sophia duas vezes para supervisionar os preparativos e posar para fotos. A segunda vez foi com sua mulher, Emine, na noite de quinta-feira, quando se fizeram fotografar em frente a uma cortina branca que fora suspensa na abside para esconder um dos famosos mosaicos, o qual representa a virgem e o filho.

Mas, quando a decisão se tornou realidade, acelerando os preparativos para a grande cerimônia de reabertura – entre eles a cobertura do piso de mármore e dos mosaicos medievais –, o desalento se espalhou pelos círculos culturais e acadêmicos de todo o mundo.

Em um dos protestos mais veementes, a Associação Italiana de Estudos Bizantinos, liderada por Antonio Rigo na Universidade Ca’ Foscari de Veneza, alertou que transformar Hagia Sophia em uma mesquita operante na Turquia dos dias de hoje significaria condenar o monumento ao abuso e à asfixia.

“Hagia Sophia não é apenas um monumento, mas uma fonte rica e inesgotável de conhecimento histórico, um documento aberto à investigação”, disse a associação em carta aberta. “Sua reversão a um local de culto, com todas as alterações inevitáveis que isto implica, destina-a ao fechamento e ao silêncio."

A Turquia já vinha conduzindo um esforço lento, mas sistemático, para encobrir seu passado bizantino, fazendo alterações em meia dúzia de igrejas bizantinas restauradas como mesquitas em todo o país, disse a associação.

A associação também deplorou o que descreveu como uma “flagrante demonstração de intolerância e estreiteza ideológica” da parte de Erdogan e condenou o que caracterizou como exaltação da violência da conquista.

A associação exortou acadêmicos e “membros da humanidade” a se posicionarem e impedirem um “ato de abuso contra todos os povos do mundo e contra suas esperanças de reconciliação e paz”.

Os historiadores de arte lamentaram a cobertura do piso da basílica, famoso por sua variedade de mosaicos coloridos, dispostos na forma de desenhos geométricos ou simétricos, cuja função era demarcar rituais, como o local onde os imperadores eram coroados.

Um tapete de lã turquesa de 2 mil metros quadrados, tecido especialmente para Hagia Sophia, foi colocado sobre metade do piso da mesquita, com camadas extras de feltro para preencher a irregularidade dos mosaicos. Imagens de televisão feitas no interior do edifício pareciam mostrar que um dos pontos mais importantes – o local onde os imperadores eram coroados – continuavam expostos. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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