AP Photo/Burhan Ozbilici
AP Photo/Burhan Ozbilici

Erdogan prepara uma nova intervenção militar. Desta vez na Líbia

Ação é exemplo da crescente autoconfiança da Turquia como potência regional, dizem analistas; país tem economia cambaleante e desemprego preocupante

Carlotta Gall / The New York Times, O Estado de S.Paulo

17 de janeiro de 2020 | 11h14

ISTAMBUL – Ampliando sua presença numa região volátil, na quinta-feira, 17, o presidente da  TurquiaRecep Tayyip Erdoganrecebeu aprovação unânime do Parlamento para uma nova intervenção militar no exterior, desta vez na Líbia. Poucos meses depois de uma terceira incursão militar na Síria, a intervenção na Líbia é o exemplo mais recente da crescente autoconfiança da Turquia como potência regional, dizem analistas.

Mas alguns questionam qual a razão de Erdogan se envolver mais profundamente nesse país. Há muito tempo ele ambiciona uma restauração do Império Otomano, restabelecendo a posição de liderança da Turquia no mundo muçulmano, implementando uma política externa de expansão.

Sua posição regional, em aliança com o Qatar, colocou a Turquia contra a Arábia Saudita, Egito e os Emirados Árabes Unidos. Os grupos de oposição apoiam forças rivais que se enfrentam na Líbia e na Síria e representam um novo fator de divisão no Oriente Médio.

Mas a política interna também não está longe dos cálculos do presidente e as suas aspirações geopolíticas são populares dentro do país. A missão na Líbia, parte do antigo império otomano, se insere nessa visão.

Sua política externa resoluta se defronta com vários rivais externos que ele tira proveito para alimentar o nacionalismo e manter o apoio que desfruta dentro do país, mesmo buscando os interesses da Turquia de maneira agressiva.

Seis meses depois da perda de Istambul nas eleições locais – sua mais significativa derrota numa carreira política de 25 anos, Erdogan, com 65 anos de idade, avalia a realização de eleições gerais em 2020, afirmam alguns analistas políticos.

Embora seu mandato termine apenas em 2023, sua própria derrota nas urnas e as cisões dentro do seu partido o estão levando a pensar numa eleição antecipada no próximo ano, afirmou Mehmet Ali Kulat, consultor político e pesquisador em Ancara.

Uma economia cambaleante, o crescimento anêmico e a desvalorização da moeda, além da inflação e do desemprego preocupantes, tornam mais urgentes as decisões do presidente. Um discurso que Erdogan proferiu para a diáspora turca em Londres, em dezembro, pareceu muito mais um discurso de campanha.

“A Turquia está em mãos confiáveis”, afirmou. “Hoje a Turquia está muito mais poderosa do que há 17 anos. Não é um país que possa ser facilmente manipulado. Hoje existe uma Turquia determinada, estabelecendo as regras do jogo em sua região e evitando complôs”.

Erdogan afirmou que tem interesses do ponto de vista da segurança no Iraque e na Síria porque a Turquia divide uma longa fronteira com os dois países e tem sofrido com a instabilidade decorrente dos conflitos naquelas regiões. No caso da Líbia ele ofereceu argumentos similares, e históricos.

E na semana passada ele afirmou que a Líbia foi o último dos territórios otomanos a ser perdido e que o fundador da Turquia, Mustafa Kemal Ataturk, combateu e foi ferido ali quando era um jovem oficial.

“Não é difícil convencer a sociedade turca da necessidade de uma intervenção na Líbia, em parte por causa do legado otomano”, afirmou Asli Aydintasbas, membro do European Council for Human Rights. Mas existem também interesses turcos em jogo. Há o desejo de explorar as reservas de gás e petróleo no leste do Mediterrâneo, nas costas de Chipre, competindo com a Grécia, Chipre, Egito e Israel, opinam os analistas.

Combatentes sírios apoiados pelos turcos já chegaram à Líbia e outros se reuniram em campos de treinamento na Turquia antes da mobilização, de acordo com o Observatório Sírio de Direitos Humanos, uma organização independente de monitoramento.

Essa movimentação acompanhou o maior apoio já manifestado  este ano por Erdogan ao Governo de Unidade Nacional (GNA na sigla em inglês) liderado pelo primeiro ministro Fayez Al-Arraj.

A Turquia enviou assessores militares, armas e uma frota de 20 drones para defenderem Trípoli contra o ataque das forças do general Khalifa Hifter, que controla uma grande área a leste da Líbia e é apoiado pela Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos e o Egito.

Depois de a Rússia se envolver, recentemente, enviando forças contratadas para apoiar a ofensiva de Hifter, Erdogan acelerou o passo. A assistência turca, com base no novo acordo, intensificará os treinamentos, com um reforço da capacidade, segundo documento do European Council for Foreign Relations.

“Ao que parece a Turquia não só defenderá o GNA, mas terá influência na formulação da sua segurança futura”, diz o documento. Essa perspectiva mais agressiva de Erdogan irritou seus vizinhos, especialmente a Grécia, que se preocupa agora com um confronto. Diplomatas em Atenas e Bruxelas afirmam que a situação ficou mais tensa do que ocorreu há duas décadas quando os dois vizinhos trocaram tiros no Egeu, em 1996. 

Tribunal de Justiça em Haia 

Sob pressão, o primeiro ministro grego Kyriakos Mitsotakis está disposto a mudar décadas de política externa, tendo anunciado no domingo que pretende levar a Turquia ao Tribunal de Justiça Internacional em Haia.

Mas em Bruxelas os diplomatas admitem que só podem ir até aí para pressionar a Turquia, avaliando o quão desesperadamente dependem de Erdogan para controlar o fluxo de imigrantes na Europa, que ficou desestabilizada com a chegada de mais de um milhão de requerentes de asilo em 2015.

Agora Erdogan se depara com a possibilidade de uma nova crise de refugiados vindos da Síria, onde forças russas e do governo sírio redobraram sua ofensiva em Idlib, a última província controlada pelos rebeldes.

A chanceler Angela Merkel se prepara para uma visita à Turquia este mês. Erdogan já alertou que será forçado a abrir os portos para os refugiados entrarem na Europa novamente. Por sua vez, o flerte de Erdogan com a Rússia provocou a ira americana e europeia. Como também a incursão na Síria, apesar do aparente sinal verde do presidente Donald Trump.

“Naturalmente todos estão nos aconselhando: o que vocês estão fazendo na Síria?  Quando vocês deixarão a Síria?”, disse Erdogan quando discursou em Londres.

“Temos uma única resposta: ‘e o que vocês estão fazendo na Síria? Têm uma fronteira ali? Não. E o que estão fazendo lá? Vocês estão a uma distância de 10.000 quilômetros, três mil, cinco mil. Mas nós dividimos uma fronteira de 911 quilômetros’”. Trump até agora não agiu segundo decisões do Congresso para punir a Turquia pela compra de mísseis S400 russos e violar as sanções americanas contra o Irã.

O que não impediu Erdogan de ameaçar fechar o acesso americano às bases turcas, incluindo a base aérea de Incirlik, que abriga aproximadamente 50 armas nucleares táticas dos Estados Unidos. 

Erdogan também permaneceu leal às revoltas da Primavera Árabe desde que começaram em 2011, o que o colocou em discordância com ditadores no Egito, Tunísia e Líbia, e com os Estados Unidos.

Mesmo que outras nações ocidentais tenham retirado seu apoio quando extremistas assumiram o controle daquelas revoltas, ou, no caso do Egito, uma contrarrevolução derrubou o governo islâmico eleito, a Turquia apoiou os grupos de tendência islâmica que surgiram após essas revoltas.

E isto inclui a Líbia, que deixa também ressaltado o desejo de Erdogan de empreender uma política externa independente. “Hoje existe uma Turquia com uma política externa independente, realizando operações visando sua própria segurança nacional sem buscar permissão de ninguém”, ele afirmou em Londres. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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