AFP PHOTO / TURKEY'S PRESIDENTIAL PRESS SERVICE / KAYHAN OZER
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Erdogan viaja a São Petersburgo para tentar fortalecer relações com Putin

Visita é feita depois que o presidente turco pediu desculpas pela destruição de um avião de combate russo por caças da Turquia; episódio desencadeou uma dura troca de acusações entre os dois países

O Estado de S.Paulo

08 Agosto 2016 | 10h18

ISTAMBUL, TURQUIA - O presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, viajará na terça-feira a São Petersburgo com o objetivo de amenizar as tensões com seu colega russo, Vladimir Putin, depois de criticar os amigos pela falta de apoio após a tentativa fracassada de golpe militar em 15 de julho.

"Esta será uma visita histórica, um novo começo. Nas conversas com meu amigo Vladimir, acredito que será aberta uma nova página nas relações bilaterais", disse Erdogan em uma entrevista à agência de notícias TASS.

A visita é feita depois de uma reconciliação facilitada pelas desculpas pedidas por Erdogan - "perdão", segundo Moscou - pela destruição em novembro de um avião de combate russo perto da fronteira com a Síria por caças turcos. O incidente levou a uma dura troca de acusações entre os dois países. "O homem que causou a morte do piloto russo está preso. O processo judicial continua", destacou o líder turco.

Erdogan comemorou a reação da Rússia após o golpe frustrado. Putin foi um dos primeiros dirigentes estrangeiros a telefoná-lo para condenar o golpe, sem demonstrar reações como as dos líderes europeus com a repressão que se seguiu. "A reação russa contrasta muito com as dos aliados ocidentais da Turquia", estimou Jeffrey Mankoff, do Center for Strategic and International Studies (CSIS) de Washington.

"Por alguma razão, o Ocidente se dedica a tergiversar os conceitos ao denunciar tentativas da Turquia de mudar seu caráter laico. Mas isso não é assim. Não se deve tratar a Turquia com preconceitos", afirmou Erdogan. "Demonstramos de maneira pontual nossa sinceridade e esperamos o mesmo da União Europeia. Deve renunciar ao dois pesos e duas medidas", disse.

O Kremlin antecipou que uma das prioridades das conversas será o conflito sírio e a luta contra o terrorismo, terrenos nos quais ambos os países assumiram grupos antagônicos. Por outro lado, a Turquia é o quinto parceiro comercial da Rússia, além de destino principal de seus turistas e um de seus principais investidores, o que torna Erdogan ainda mais interessado em restabelecer os intercâmbios comerciais.

As relações entre Turquia e Rússia - países que disputam influência nas regiões estratégica do mar Negro - nunca foram fáceis. No entanto, antes da crise pela destruição do avião russo, os dois países conseguiram "compartimentar" os litígios em temas como Síria ou Ucrânia para se concentrar na cooperação estratégica como o gasoduto TurkStream à Europa, a construção de uma central nuclear russa na Turquia ou o objetivo de US$ 100 bilhões de comércio bilateral.

Incertezas. A aliança Putin-Erdogan foi construída com base na amizade entre os dois líderes, que restauraram a honra de seus respectivos países após a crise econômica e mostraram pouco respeito aos direitos humanos.

Erdogan expressou com clareza seu sentimento de abandono em relação aos Estados Unidos e à União Europeia, abrindo possibilidades para as relações turco-russas. "Embora estas relações tenham suas próprias incertezas, a deterioração das relações com as potências ocidentais pode acelerar uma aproximação", disse um analista do European Council on Foreign Relations.

A Turquia quer reparar os danos causados pelas sanções russas aos setores da agricultura, da construção e do turismo. Segundo estatísticas russas, os intercâmbios comerciais baixaram 43%, a US$ 6,1 bilhões, entre janeiro e maio deste ano. Mas depois de uma crise tão aguda, será preciso tempo e esforço até que as relações entre os dois países voltem ao normal. / AFP e EFE

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