Dida Sampaio/Estadão
Dida Sampaio/Estadão

Ernesto vai aos EUA em lançamento da Aliança de Promoção da Liberdade Religiosa

Ministro das Relações Exteriores terá encontro com representantes de Estados Unidos, Polônia e Hungria em Washington para tratar de perseguição religiosa

Paulo Beraldo, O Estado de S.Paulo

05 de fevereiro de 2020 | 09h50
Atualizado 05 de fevereiro de 2020 | 16h28

O ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, chega nesta quarta-feira, 5, a Washington, nos Estados Unidos, para o lançamento oficial da Aliança Internacional de Liberdade Religiosa. Além do governo brasileiro, participam Estados Unidos, Polônia e Hungria - nações com as quais o Brasil tem estreitado relações desde o início do mandato do presidente Jair Bolsonaro.

O anúncio da viagem foi feito na tarde de terça, em Brasília, após encontro com o chanceler polonês Jacek Czaputowicz. No comunicado conjunto, os dois países afirmaram ter princípios e valores comuns como liberdade, democracia e economia de mercado. Também enfatizaram que as duas nações estão comprometidas a trabalhar juntos para fortalecer as suas "identidades nacionais". "O Brasil e a Polônia estão profundamente comprometidos com a liberdade religiosa no mundo", diz um trecho. 

O texto também lembra das discussões ocorridas na 74ª sessão da Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas, quando Brasil e Polônia participaram de um seminário sobre liberdade religiosa com a presença de líderes como Donald Trump

Na prática, o objetivo da aliança será monitorar abusos e violações à liberdade religiosa. Na avaliação de Uziel Santana, presidente da Associação Nacional de Juristas Evangélicos no Brasil (Anajure), a iniciativa é importante porque parte da crise de refugiados e de conflitos regionais têm natureza religiosa. Ele exemplifica com os casos do grupo radical islâmico Boko Haram, que persegue cristãos na Nigéria, ou as perseguições religiosas na Guerra da Síria. 

A Anajure integra uma aliança internacional (Stefanus Alliance International) para promoção da liberdade religiosa, faz advocacy em tribunais internacionais sobre o tema e criou um painel de parlamentares internacoinais pela liberdade religiosa. "Esse movimento surgiu como resposta às graves violações e ganhou força com a chegada de Donald Trump ao poder. Ele transformou isso em uma política de Estado", explica. 

Santana diz que o Brasil tem um poder diferente de outras nações como os Estados Unidos ou os da Europa nas relações internacionais. "Quando EUA ou Europa vão reivindicar uma situação no Iraque, por exemplo, é diferente de um país latinoamericano fazer isso. Eles realmente param para ouvir, não existe aquele 'ranço' de um neocolonialismo. É importante o Brasil assumir esse protagonismo". 

Por fim, afirma que existem dois tipos de violência religiosa: a física e a simbólica. "Quando políticas de educação do nosso país, especialmente no governo Dilma, dizem que não se pode dizer para uma criança se ela é menino ou menina, isso é uma violência. É uma desconstrução dos valores judaico-cristãos da nossa nação". 

Bolsonaro na Polônia

O presidente Jair Bolsonaro comunicou ainda que irá à Polônia em 2020. O país de 40 milhões de habitantes é governado desde 2015 pelo Partido da Lei e Justiça (PiS), que chegou ao poder no auge da crise migratória do país e foi reeleito ano passado. Em maio de 2019, o ministro Ernesto Araújo visitou a Polônia, a Hungria e a Itália, onde há movimentos conservadores e nacionalistas com os quais o governo brasileiro se identifica.

A viagem foi antecedida por outra de Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), filho do presidente, que, na época, afirmou estar em uma missão para “reforçar a cruzada contra o socialismo no mundo”. Eduardo não foi à Polônia na ocasião. 

Alinhamento 

O filósofo Luiz Bueno, professor da Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP), diz que é preciso acompanhar as ações e propostas dessa aliança para entender se há a intenção de proteger a liberdade religiosa ou manter estruturas de poder com governos de ideologia similar. "Aparentemente, é a defesa de um direito universal, mas concretamente é preciso ver que iniciativas o grupo vai patrocinar", afirmou ele, que fez doutorado em ciências da religião. 

Bueno lembra que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, tem como um dos objetivos de sua administração a proteção da liberdade religiosa. "Mas você percebe, lendo os discursos, que ele está falando apenas da liberdade religiosa dos cristãos", afirma. O professor diz ainda que o Brasil não tem problemas de perseguição religiosa. "Não há um Estado que proíba certas expressões da fé. O que há são conflitos pontuais entre algumas crenças, mas não é como acontece no Oriente Médio ou na África", afirma. 

O professor entende ainda que fazer parte dessa aliança podem ser uma mensagem da administração de Jair Bolsonaro para o seu eleitorado.  "É um discurso que agrada a base do Trump e pode agradar aqui a base do presidente". Bueno ressalta que o Brasil, assim como muitas repúblicas modernas, é um Estado laico e prevê que não haja interferência do governo nas questões de fé, nem das religiões interferindo no Estado. 

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