Erros e mentiras

A Guerra no Iraque foi desejada pela Casa Branca antes mesmo do 11/9 e a mídia teve dificuldades em lidar com a desonestidade nas políticas públicas

PAUL, KRUGMAN, THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

20 de maio de 2015 | 02h01

Surpresa! Parece que há algum mérito na decisão do irmão de um presidente fracassado de concorrer à Casa Branca, afinal. Graças a Jeb Bush, talvez finalmente tenhamos o debate sobre a invasão do Iraque que deveria ter ocorrido há uma década.

Mas muitas pessoas influentes - não apenas Bush - preferem que o debate não seja realizado. Há entre a elite da política e da mídia um esforço de deixar o assunto para trás. Segundo a narrativa, é verdade que sabemos agora que invadir o Iraque foi um terrível erro e já passou da hora de todos admitirem isso. Agora, vamos superar e seguir adiante.

Ou não, pois essa é uma narrativa falsa e todos que estiveram envolvidos no debate em relação à guerra sabem que é falsa. A Guerra do Iraque não foi um erro inocente, uma empreitada guiada com base em informações de espionagem que se revelaram equivocadas. Os EUA invadiram o Iraque porque o governo Bush queria uma guerra. As justificativas públicas para a invasão não passaram de pretextos falsificados. Foram as mentiras que nos levaram à guerra.

A fraudulência da argumentação em defesa da guerra era óbvia mesmo na época: a lógica sempre cambiante para uma meta sempre constante era um forte indício. O mesmo vale para os jogos de palavras - as menções a armas de destruição em massa, misturando armas químicas (coisa que muitos acreditavam que Saddam Hussein possuía) e nucleares, as constantes insinuações de algum envolvimento iraquiano no 11/9.

A esta altura, já temos muitas provas para confirmar tudo aquilo que diziam os opositores da guerra. Sabemos agora que no próprio 11/9 - literalmente antes de a poeira baixar - o então secretário da Defesa, Donald Rumsfeld, estava planejando uma guerra contra um governo que nada tinha a ver com o ataque terrorista. "Avaliar se isso basta atingir S. H. (Saddam Hussein), abrangendo todos os temas relacionados ou não" são anotações feitas por um assistente de Rumsfeld.

Em resumo, tratou-se de uma guerra desejada pela Casa Branca e todos os supostos erros que, como diz Jeb, "foram cometidos" por uma pessoa sem nome, na verdade, decorreram desse desejo subjacente. Será que as agências de espionagem concluíram equivocadamente que o Iraque possuía armas químicas e um programa nuclear? Elas estavam sob intensa pressão para justificar a guerra. Será que as avaliações anteriores à guerra subestimaram muito o custo e a dificuldade da ocupação?

Foi porque o "partido da guerra" não quis ouvir nada que pudesse lançar dúvidas quanto à pressa em invadir. De fato, o chefe do Estado-maior do Exército foi demitido por questionar as alegações segundo as quais a fase de ocupação seria barata e fácil.

Por que eles quiseram a guerra? Essa pergunta é mais difícil de responder. Alguns dos falcões acreditavam que o uso de "choque e pavor" fortaleceria o poder e a influência dos EUA no mundo. Alguns viram o Iraque como uma espécie de projeto-piloto, uma preparação para uma série de mudanças de governo. E é difícil evitar a suspeita segundo a qual um elemento importante seria a propaganda, usando o triunfo militar para reforçar os valores dos republicanos entre os americanos.

Independentemente dos motivos, o resultado foi um capítulo muito sombrio da história americana. Fomos à guerra guiados por mentiras.

Não é difícil entender por que muitos nomes importantes da mídia e da política preferem não falar mais sobre isso. Imagino que alguns deles tenham sido enganados. Acreditaram nas mentiras óbvias, algo que depõe contra sua capacidade de julgamento. Mas um maior número deles foi cúmplice. Perceberam que a defesa oficial da guerra era um pretexto, mas tinham seus próprios motivos para desejar a guerra, ou, por outro lado, se deixaram intimidar e aderiram à maioria. Havia entre políticos e especialistas um notório clima de medo em 2002 e 2003, quando uma crítica ao ímpeto pela guerra parecia capaz de aniquilar uma carreira.

Além desses motivos pessoais, nossa mídia jornalística em geral teve dificuldade em lidar com a desonestidade nas políticas públicas. Os repórteres relutam em enfrentar os políticos e desmascarar suas mentiras, mesmo quando essas envolvem questões mundanas como números do orçamento, por medo de parecerem partidários. Na verdade, quanto maior a mentira, quanto mais claro o envolvimento de grandes figuras da política em fraudes flagrantes, maior a hesitação na reportagem. E uma mentira não pode ir muito além - nem ser mais criminosa - do que levar os americanos à guerra com base em mentiras.

Mas a verdade é importante, não apenas porque aqueles que se recusam a aprender com a história estão fadados a repeti-la, de uma maneira ou de outra. A campanha de mentiras que nos levou ao Iraque foi recente o bastante a ponto de ainda ser importante responsabilizar os indivíduos culpados. Deixemos para lá os gaguejos de Jeb Bush. Pensemos em vez disso em sua equipe de política externa, liderada por pessoas diretamente envolvidas na produção de uma argumentação falsa em defesa da guerra.

Por isso, é melhor passar a limpo a história da Guerra do Iraque. Sim, do ponto de vista nacional, a invasão foi um erro. Mas (que me desculpe Talleyrand) foi pior que um erro: tratou-se de um crime. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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