Esbanjando para obter prestígio

O caso dos espiões nos EUA mostra que a Rússia mantém a velha prática de desperdício em programas sem valor

Harley Balzer, O Estado de S.Paulo

18 de julho de 2010 | 00h00

Quando me encontrei com colegas em Moscou, na primeira semana de julho, as conversas inevitavelmente concentraram-se nos dez agentes russos presos nos Estados Unidos.

Alguns conhecidos observaram que esses agentes não tinham feito nada diferente do que qualquer pesquisador de um grupo de estudos. Precisei observar que especialistas e estudantes de política geralmente usam seus próprios nomes e não ocultam suas atividades.

Essa grande troca de espiões para resolver esse escândalo fará os líderes russos se sentirem como se tivessem voltado aos antigos tempos dourados de superpotência. E todo o episódio ainda pode lhes render algum dinheiro.

Quando se procura dar explicações sobre o que teria levado dez russos a viver nos Estados Unidos em completo segredo, e não fazer nada que tivesse algum real valor, a ênfase é sempre dada nas velhas maneiras de pensar, nos hábitos da Guerra Fria e nos esforços para se reviver a capacidade de defesa da Rússia.

Essas explicações omitem um aspecto crucial: o desperdício de dinheiro e talento é norma em praticamente tudo o que a Rússia faz no cenário global, e isso não é uma coisa nova. A Rússia esbanja enormes somas de dinheiro em busca de prestígio, e grande parte desse dinheiro acaba nos bolsos de autoridades corruptas.

Voltando aos tempos da União Soviética, o programa espacial soviético foi um excelente exemplo. Paralelamente aos esforços científicos e militares no campo espacial, dominado pelos cosmonautas soviéticos, a União Soviética tinha um programa para lançar representantes de países socialistas irmãos em órbita. O programa teria sido bem menos caro se os camaradas estrangeiros tivessem tido permissão para viajar em voos científicos regularmente planejados. Em vez disso, a viagem inteira desses cosmonautas colegas eram operadas separadamente com seu próprio orçamento. Os voos eram pura propaganda, com desperdício de dinheiro e da oportunidade de uma colaboração séria nesse campo. As pessoas que administravam o programa viajavam para o exterior para recrutar participantes e controlavam um orçamento substancial.

Intercâmbios. Outro exemplo do desperdício de dinheiro pelos soviéticos foi seu programa oficial de intercâmbio cultural com os Estados Unidos.

Americanos mais radicais criticavam esses intercâmbios que permitiam à União Soviética enviar cientistas e engenheiros para conhecer os mais recentes avanços dos Estados Unidos, enquanto que os americanos enviavam historiadores e especialistas em literatura para estudar temas soviéticos.

A noção de que os russos estavam adotando um programa de espionagem cuidadosamente direcionado foi derrotada quando os americanos souberam que autoridades do Ministério do Ensino Superior soviético encarregadas do programa de intercâmbio vendiam vagas no programa, em troca de dinheiro. O que não evidenciava as aspirações carreiristas de supostos participantes, mas refletia, sim, o desejo de conseguir uma renda suplementar que seria obtida com a compra de jeans e aparelhos de videocassete nos Estados Unidos e a venda desses produtos em casa.

A Rússia pós-soviética é um pouco melhor. Um artigo no Vedomosti, no final de julho, indicava que cada uma das dezenas de medalhas olímpicas que os russos conquistaram em Vancouver custavam em média 350 milhões de rublos, ou mais de US$ 11,5 milhões.

As autoridades russas esbanjam e roubam dinheiro e a lista das maneiras como o fazem é infinita. Os custos de produção da Gazprom ultrapassam os de qualquer empresa similar no mundo. A construção de rodovias é famosa pela péssima qualidade delas e seu enorme custo. A Rússia admite que tem uma grande proporção da sua população no ensino superior, que seria a maior de que qualquer país no mundo, mas fora do setor energético, a produtividade da mão de obra russa equivale ao que vemos em países com níveis muito inferiores de educação. Gastos enormes para a educação e ciência na década passada produziram poucos resultados visíveis.

Desperdício. Diante desse desperdício recorde de fundos com pouco retorno, não deveria surpreender o fato de o serviço de inteligência da Rússia controlar um grupo de "espiões" que recebeu muito dinheiro e realizou nada de que pudesse ser acusado. Em vez de representar prova de uma espionagem ativa, o episódio parece mais uma história dolorosamente familiar: autoridades gerindo enormes volumes de dinheiro para um programa prioritário com a mínima responsabilidade.

Ironicamente, com sua revelação, o programa parece ter sido mais compensador do que sonhava seu mais entusiasmado patrocinador: a Rússia novamente se assemelha a um império da espionagem de elite. A aversão dos americanos em ver pessoas inocentes encarceradas levou à troca de "espiões", com prisioneiros russos inocentes, como Igor Sutiagyn, admitindo sua culpa para ser trocado por pessoas que são realmente as culpadas, mesmo não tendo chegado a nada. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

É PROFESSOR DE ASSUNTOS INTERNACIONAIS E DE GOVERNO NA UNIVERSIDADE GEORGETOWN

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