Escândalo chega mais perto de Chirac

Na manhã de ontem, Dominique de Villepin, ex-primeiro-ministro de Jacques Chirac, foi colocado sob investigação pela Justiça. Ele é suspeito de cumplicidade em denúncia caluniosa, cumplicidade em falsas alegações, acobertamento de roubo e abuso de confiança. Nada mal para esse personagem brilhante e imponente que há apenas dois meses dirigia a França sob as ordens do ex-presidente Chirac.Mas há algo mais mordaz (ou mais triste): as vilanias atribuídas a Villepin tinham um único alvo: o atual presidente, Nicolas Sarkozy, então ministro do Interior e membro do mesmo partido de Chirac e Villepin, o União para um Movimento Popular (UMP). Guerra dentro da direita. Segundo as suspeitas, como chanceler de Chirac, e depois primeiro-ministro, Villepin encorajou, e talvez tenha até organizado, uma operação para cobrir de infâmia seu grande rival, Sarkozy, para que este não pudesse disputar a presidência, deixando assim o caminho aberto para Chirac ou o próprio Villepin.A armadilha para Sarkozy era simples: fizeram circular listas mostrando que algumas personalidades mantinham contas secretas num banco de Luxemburgo, especializado em lavagem de dinheiro e outras operações escabrosas. A artimanha usada foi inserir, numa lista de contas desse banco, outras imaginárias - entre estas, algumas atribuídas a Sarkozy.Quando o golpe foi descoberto, os juízes foram em busca da rede de pessoas envolvidas na criação dessa pirâmide de mentiras. Investigações preliminares os conduziram diretamente a Villepin. Mas surge a pergunta: Villepin trabalhava para outra pessoa? E um nome vem à cabeça: o do presidente na época, Jacques Chirac, que professa um ódio implacável contra Sarkozy.Imaginemos a cena: três homens que governam a França. Trabalham juntos para solucionar os problemas do país, como desemprego, terrorismo, questões européias, etc. Semanalmente, Chirac preside um Conselho de Ministros, do qual participam Villepin e Sarkozy. Ora, sob essa fachada respeitável, na verdade são arquiinimigos que se espreitam e tentam se matar. Essas reuniões não eram de um Conselho de Ministros, mas de um ninho de cobras.Um bom romancista criaria a partir dai uma boa história. Mas não exageremos. Não se trata de uma tragédia, mas de um melodrama comum de teatros populares. Não vamos comparar esses personagens ministeriais às cenas de alguma peça de Shakespeare, na qual os personagens eram mais sanguinários, mas grandiosos.Agora que Villepin passa a ser formalmente investigado, o fogo se aproxima de Chirac. Será ele também ouvido pelos juízes? Ou conseguirá provar que um ex-presidente não pode ser interpelado judicialmente por fatos que se produziram durante seu governo?

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