Escândalo de espionagem abala imagem de Uribe

Popularidade segue alta, mas denúncia afeta presidente no momento em que Colômbia discute 3.º mandato

Juan Forero, THE WASHINGTON POST, O Estadao de S.Paulo

19 de maio de 2009 | 00h00

Durante as semanas que se seguiram à divulgação da notícia, os colombianos souberam apenas que a polícia secreta tinha espionado juízes da Suprema Corte, políticos da oposição, ativistas e jornalistas. Havia a suspeita de que as ordens para os grampos teriam partido do palácio presidencial. Na sexta-feira, o gabinete do inspetor-geral anunciou a abertura de uma investigação contra três assessores próximos do presidente Alvaro Uribe e três ex-funcionários do Departamento de Segurança Administrativa (DSA), o serviço secreto que responde ao presidente. As revelações foram feitas na esteira de um escândalo de tráfico de influência envolvendo os dois filhos do presidente, Tomás e Gerónimo, e de uma investigação cada vez mais profunda sobre os elos entre aliados de Uribe no Congresso e esquadrões da morte formados por paramilitares de direita. Apesar de a popularidade de Uribe manter-se em alta por ele ter trazido segurança e prosperidade econômica, os escândalos o atingem no momento em que ele avalia a possibilidade de um terceiro mandato. Os responsáveis pela política de Washington para a América Latina também acompanham de perto a polêmica. Os EUA já forneceram à Colômbia quase US$ 6 bilhões em auxílio - principalmente militar - para o combate às drogas com o intuito de auxiliar o governo Uribe na luta contra rebeldes marxistas e cartéis de traficantes.Myles Frechette, ex-embaixador americano em Bogotá e atual responsável pelo acompanhamento da situação política colombiana, disse que a ampliação do escândalo levaria a uma redução da ajuda oferecida pelo governo Obama. "Washington está cada vez mais inquieto", disse Frechette. "Acho que os congressistas sentirão um grande desconforto ao ver essas coisas partindo de Uribe."As alegações têm dominado as manchetes até de veículos com histórico de favorecimento aberto ao presidente. Em editorial recente, o jornal El Tiempo questionou como a agência poderia ter contrariado Uribe quando é ele quem a controla. "Em tudo o que ocorreu, o que mais se destacou foram os argumentos sofríveis da Casa de Nariño (sede do governo)", dizia o texto. As denúncias de espionagem de revista Semana detalham como o DSA voltou suas atenções para alguns dos principais opositores de Uribe, incluindo Carlos Gaviria, que concorreu com o presidente nas eleições de 2006, e para jornalistas que cobrem os bastidores do governo, entre eles Daniel Coronell, que administra uma pequena rede de TV. Além disso, os agentes do DSA interceptaram conversas telefônicas, estudaram registros financeiros e seguiram juízes da Suprema Corte. Uribe e seus assessores envolveram-se em seguidos confrontos com o tribunal por causa da investigação dos elos entre legisladores e um movimento paramilitar agora extinto. Dúzias de deputados foram presos, incluindo o primo de Uribe, o ex-senador Mario Uribe. O presidente diz que a investigação tem motivação política. O ex-senador Rafael Pardo está entre aqueles que foram seguidos e tiveram o telefone grampeado. Ele era aliado de Uribe, mas agora faz parte da oposição e cogita se candidatar à presidência. "Trata-se de um regime que usa o serviço secreto para cooptar os direitos políticos", disse Pardo. "Como podemos falar em garantias políticas quando o serviço secreto vigia os políticos em campanha?" ''PRESIDENTE TEFLON''Uribe, eleito pela primeira vez em 2002, foi apelidado de "presidente teflon" porque os muitos escândalos em que se envolveu não foram capazes de prejudicar sua popularidade. Mas, agora, ele se mostrou irritado com as recentes reportagens que afirmam que seus filhos teriam investido em terras cujo valor aumentou muito depois que foram designadas pelo governo como parte de uma zona franca industrial.

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