Escândalo de mala com dólares derruba assessor de Kirchner

Funcionário ligado a homem-forte do gabinete argentino e de estreitas ligações com a Venezuela não resiste à pressão

Ariel Palacios, BUENOS AIRES, O Estadao de S.Paulo

07 de agosto de 2010 | 00h00

O ''''escândalo da mala'''' - o caso cujo pivô é uma maleta com US$ 790 mil que chegou à Argentina sem serem declarados pelas mãos de um cidadão venezuelano no fim de semana - causou ontem a primeira baixa. O argentino Claudio Uberti, diretor do Órgão de Fiscalização de Estradas e homem de confiança do poderoso ministro do Planejamento e Obras Públicas, Julio De Vido, teve de deixar o cargo 12 horas depois que a Justiça divulgou que ele era um dos nove passageiros do jatinho, vindo de Caracas - que no sábado pousou em Buenos Aires com os dólares contrabandeados. Outros passageiros do avião eram integrantes dos governos argentino e venezuelano (incluindo funcionários da estatal petrolífera da Venezuela, a PDVSA), além de Guido Antonini Wilson, o venezuelano que carregava a maleta.A procuradora María Luz Rivas Díaz denunciou ontem Antonini Wilson por ''''tentativa de contrabando'''', pedindo à Justiça a abertura de processo contra o venezuelano - que seguiu dias depois para o Uruguai.O presidente Néstor Kirchner fez alarde ontem de sua disposição de combater a corrupção. ''''Não escondo nada. E quando algo acontece, tomo as medidas que correspondem!'''', esbravejou num comício. ''''Pela primeira vez, neste país, a corrupção é combatida a sério!'''', acrescentou, sem se referir a Uberti.Após a renúncia de Uberti - principal negociador de acordos com a Venezuela e considerado ''''embaixador paralelo de Kirchner'''' -, havia a expectativa de que outro integrante do vôo, o argentino Exequiel Espinosa, presidente da estatal petrolífera Enarsa (que havia alugado o jatinho), também deixasse o cargo. Mas o chefe do gabinete de ministros, Alberto Fernández, confirmou que Espinosa permaneceria em seu posto. ''''Ele não tem nada ver com esse assunto'''', explicou. ''''Houve abuso da boa-fé dos funcionários argentinos por parte dos funcionários venezuelanos que pediram que trouxessem alguém que levava uma maleta com essa quantia em dinheiro sem que ninguém soubesse.''''O escândalo atinge De Vido, braço direito de Kirchner na área econômica. Líderes da oposição pediram a renúncia imediata de De Vido, que também é suspeito de envolvimento no caso Skanska (escândalo de suborno e superfaturamento na construção de grandes gasodutos na Argentina). Entre os empresários argentinos, De Vido é apelidado de ''''celular'''', uma referência aos supostos 15% - mesmo número do prefixo da principal operadora de telefonia móvel argentina - cobrados de comissão para a concessão de contratos.O escândalo também ameaça causar uma onda de denúncias sobre as relações obscuras e bilionárias entre os governos Kirchner e Hugo Chávez. O deputado Esteban Bullrich, da centro-direitista Proposta Republicana, diz haver superfaturamento nas compras argentinas de diesel venezuelano, entre outras irregularidades.Nos últimos três anos, as relações comerciais e financeiras entre os dois países intensificaram-se com a aproximação política de seus governos - que, nas últimas semanas, começou a esfriar. A razão é a candidatura presidencial da mulher de Kirchner, a senadora Cristina Kirchner. O casal presidencial, com a intenção de conquistar a confiança do mercado, optou por manter os laços econômicos com Chávez, mas afastar-se dele gradualmente na esfera política.O escândalo, em meio à campanha eleitoral, teria indisposto ainda mais os Kirchners com Chávez. Ontem, o governo argentino tentou desvincular-se da maleta, responsabilizando os passageiros venezuelanos, todos homens de confiança de Chávez. O ''''OURO DE CARACAS''''Bolívia - Candidatos que disputavam a presidência da Bolívia com Evo Morales, em dezembro de 2005, acusaram o candidato indígena de ter recebido apoio material do governo venezuelano para sua campanha eleitoral.Nicarágua - Chávez, por meio da estatal venezuelana PDVSA, apoiou a candidatura do ex-presidente esquerdista Daniel Ortega, que acabou vencendo a eleição do ano passado e retornando ao poder. Numa ação atribuída por Chávez à ''''solidariedade latino-americana'''', a PDVSA distribuiu combustível a preços simbólicos às cidades nicaragüenses governadas por prefeitos sandinistasPeru - O aberto apoio de Chávez ao candidato nacionalista Ollanta Humala abalou as relações diplomáticas entre Venezuela e Peru - que chegaram a chamar de volta seus respectivos embaixadores. Chávez e o peruano Alan García, que venceria a eleição, chegaram a trocar insultos publicamenteEquador - O candidato presidencial derrotado em novembro, Álvaro Noboa, acusou o vencedor, Rafael Correa, de ter recebido financiamento e assessoria do governo de Chávez em sua campanha. Amigo pessoal do presidente venezuelano, Correa rejeita a acusação

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