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‘Escândalo do convento’ abala grupo de Cristina

Prisão de kirchnerista com US$ 8,9 milhões estimula piadas e pressão por lei de delação

Rodrigo Cavalheiro, Correspondente / Buenos Aires, O Estado de S. Paulo

19 Junho 2016 | 05h00

A prisão do ex-secretário de Obras Públicas do kirchnerismo José López, flagrado arremessando US$ 8,9 milhões sobre o muro de um convento na madrugada de terça-feira, alterou o panorama político, o ritmo do Judiciário e o senso de humor dos argentinos.

O flagrante desencadeou medidas judiciais que acuaram a oposição a Mauricio Macri e o pressionaram a desengavetar a promessa de uma lei de delação premiada. O projeto começará a ser debatido na quarta-feira no Congresso e sua aprovação representaria uma revolução nas investigações em curso. 

A sacudida nos alicerces da política argentina ocorreu porque Jesús Omar Ojeda, de 49 anos e sono leve, pensou que furtavam seus frangos. Vizinho do convento, o granjeiro estranhou a presença de um carro às 2 horas, sob 6ºC, e de um homem que tocava a campainha das freiras. Quando o viu saltar o muro, depois de jogar sacolas para dentro, temeu pelas religiosas. Achou que se tratava de um ladrão comum. 

“Roubei esse dinheiro para vir ajudar aqui”, foram as palavras de López ao entrar, relatou María, de 95 anos, uma das freiras que moram no convento Monjas Orantes y Penitentes de Nuestra Señora del Rosario de Fátima, a uma rádio. O lugar ocupa uma quadra em uma região de casas de campo e sítios de General Rodríguez, com 63 mil habitantes, a 58 quilômetros de Buenos Aires. 

Em área de ruas de terra, o único trecho de asfalto é o da entrada do monastério, cercado por arame farpado. A polícia isolou a entrada, mas por frestas aparecem prédios em construção. Até sua morte, há dois meses, ali vivia um dos líderes da Igreja Católica argentina, o arcebispo Rubén di Monte, amigo do ex-ministro do Planejamento kirchnerista Julio de Vido, hoje deputado. 

Oposição. Uma das repercussões do “escândalo do convento” – também se usou o trocadilho “monastério do Planejamento” – foi o embargo de parte dos bens de De Vido, uma espécie de superministro de Cristina Kirchner. O cerco contra ele se fecha por outro processo, iniciado em 2011 e retomado agora, por desvio de R$ 50 milhões destinados a casas populares distribuídas pela associação Mães da Praça de Maio. 

A líder do grupo, Hebe de Bonafini, defensora incondicional de Cristina, também foi chamada a depor, como De Vido. Ela alegou inocência. “Um grupo que trabalhava conosco nos roubou. A Justiça, em vez de condená-los, nos fez pagar as dívidas que eles deixaram”, disse ao Estado a ativista, que promete não acatar a intimação e sugeriu ao juiz que conduz o caso “fazer bom uso dela”.

A imagem dos sacos de dólares, uma arma e joias apreendidos com López atiçou a criatividade de antikirchneristas. Em sites de comércio digital, foram publicados anúncios de vendas de Merivas, carro usado por López, com a capacidade do porta-malas medida em volume de dinheiro.

O desgaste ampliado pelas piadas levou ícones kirchneristas, especialmente artistas e jornalistas defensores da “década ganha”, a cobrar pela primeira vez uma explicação de sua líder. No Facebook, Cristina escreveu “à militância dolorida” que o dinheiro encontrado com o ex-funcionário não havia partido dela.

Para a analista política Mariel Fornoni, o caso compromete o futuro da ex-presidente. “López é o secretário de Obras Públicas que durante 25 anos trabalhou com De Vido e os Kirchners. É algo demolidor para o ‘relato’ kirchnerista. Parte do peronismo se enterrou por não romper a tempo com Cristina”, diz.

Casa Rosada. Para Macri, o episódio reverteu uma perda de apoio progressiva entre opositores moderados no Congresso. Após a prisão de López, o macrismo obteve vitórias na Câmara e no Senado com votações mais folgadas que o previsto. Três deputados e um senador abandonaram o “bloco K”. 

A expectativa de que López revele a origem do dinheiro e quem acima dele estava envolvido no esquema também causou incômodo ao presidente, que prometeu em campanha uma lei de delação premiada para casos de corrupção.

O projeto sofre resistência de parlamentares decisivos, por exemplo, para a aprovação na semana passada de dois juízes da Corte Suprema no Senado e uma lei de anistia fiscal na Câmara. Para não perder sua base parlamentar, a Casa Rosada evitava colocá-lo na mesa. “O governo não tem interesse que tudo se despedace, não interessa uma crise institucional como a do Brasil”, opina Mariel.

Para o sociólogo Carlos de Angelis, da Universidade de Buenos Aires, o estímulo à delação pode levar a uma onda de prisões que fugiria do controle num país com corrupção sistêmica em obras públicas. “O fato é que as circunstâncias da prisão de López causam uma mistura de espanto e ridículo que faz a informação correr mais rápido. Isso afeta a todos.”

7 RAZÕES PARA UM ESCÂNDALO TORNAR-SE POP:

1 - Local do flagrante

O ex-secretário de Obras kirchnerista José López (foto) foi flagrado ao tentar esconder de madrugada bolsas com US$ 8,9 milhões de dólares em um convento que frequentava. Suspeita-se que ele tenha sido alertado sobre uma batida policial, o que o motivou a “livrar-se” da fortuna. O celular dele está sendo periciado. Um promotor que o investigava disse que não havia operação prevista. 

 2 - Os personagens

Quando José pulou o muro do convento, a polícia foi avisada por um vizinho chamado Jesús. A prisão ocorreu diante de María, uma freira de 95 anos. A origem bíblica dos nomes do trio multiplicou piadas e repercussão.

3 - Atuação de López

López gritou no convento que trazia dinheiro roubado para as freiras. Diante da polícia, esqueceu datas, nomes e pediu cocaína. Testes laboratoriais indicaram que ele não havia se drogado. Para evitar seu depoimento, a defesa alegou que seu estado de saúde era delicado. 

4 -  Estratégia de defesa

O caso ganhou mais notoriedade quando se soube que a defensora de López seria Fernanda Herrera. Ela cultiva o apelido de “advogada hot” por seus ensaios sensuais e apresentações de cumbia, equivalente musical argentino para o funk brasileiro.

5 - Reação da base kirchnerista

Militantes históricos do kirchnerismo, em especial jornalistas e artistas que em outros momentos ignoraram denúncias de corrupção envolvendo o governo kirchnerista, exigiram pela primeira vez de Cristina uma explicação. Ela respondeu que o dinheiro não partiu dela.

6 - Arquivo vivo

Os dois principais personagens aos quais López prestava contas são Julio de Vido, ex-ministro do Planejamento da ex-presidente Cristina. Ambos admitiram em redes sociais que o flagrante indica corrupção, mas deixaram o ex-funcionário sozinho em sua defesa. “Lopecito” controlou o ritmo de liberação de obras nos mandatos de Néstor (2003-2007) e Cristina (2007-2015).

7 -  Origem do dinheiro

Câmeras de segurança que gravaram López saindo de casa no dia da prisão indicam que ele foi a outros lugares antes de chegar ao convento. Não havia sinais em sua residência de que as bolsas estivessem lá antes. A polícia levou 22 horas para contar à mão os US$ 8,9 milhões porque o dinheiro estava úmido e travava as máquinas de cálculo. A investigação ainda não foi concluída.

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