Paul Hackett/Reuters
Paul Hackett/Reuters

Escândalo dos grampos derruba executivo do ''Wall Street Journal''

Les Hinton, um dos mais importantes executivos ligados a Rupert Murdoch, foi o segundo nome de peso a deixar a News Corp., conglomerado do magnata; pouco antes, Rebekah Brooks, que comandava o braço britânico da empresa, também deixou o cargo

, O Estado de S.Paulo

16 de julho de 2011 | 00h00

WASHINGTON

Les Hinton, um dos executivos mais importantes da News Corp., empresa do magnata Rupert Murdoch, pediu demissão ontem. Ele era diretor da News International, braço britânico do grupo, na época do escândalo das escutas telefônicas do tabloide News of the World. Atualmente, Hinton era diretor da Dow Jones, que publica o jornal Wall Street Journal.

Foi a segunda demissão em menos 24 horas de executivos ligados a Murdoch. Pouco antes, a ex-editora-chefe do News of the World, Rebekah Brooks, também deixou o cargo de CEO da News International.

As saídas de dois dos jornalistas responsáveis pelo tabloide britânico foram anunciadas no mesmo dia em que o magnata australiano divulgou um pedido de desculpas às famílias grampeadas, que seria publicado nos principais jornais da Grã-Bretanha neste fim de semana.

Hinton trabalhou com Murdoch por mais de 50 anos e comandou a News International entre 1995 e 2007. Rebekah foi sua sucessora. Hinton pediu desculpas pela "dor" causada pelos jornalistas comandados por ele durante o período em que comandou o grupo de comunicação.

Ele foi a primeira vítima causada pelo escândalo dos grampos na parte americana do conglomerado, que pode sofrer ainda novas baixas. Na quinta-feira, o FBI anunciou que começou a investigar supostas escutas ilegais a parentes das vítimas dos ataques de 11 de setembro de 2001 (mais informações nesta página).

Nos EUA, o conglomerado de Murdoch publica os jornais New York Post, Wall Street Journal e ainda é dono do canal de TV Fox News e do estúdio de cinema 20th Century Fox.

Pressão saudita. A demissão de Rebekah ocorreu poucas horas depois de a BBC exibir uma entrevista com o segundo maior investidor do grupo de Murdoch, o bilionário príncipe saudita Al-Waleed bin Talal al-Saud, que pediu a cabeça da jornalista.

O príncipe disse que Rebekah deveria deixar o cargo se achasse que sua conduta na chefia do News of the World foi inadequada. "Para mim, ética é muito importante, não vou lidar com uma mulher sobre a qual exista dúvida a respeito de sua integridade", afirmou.

Ela era responsável pelo tabloide durante a cobertura do caso da adolescente Milly Dowler, de 13 anos, assassinada em 2002. A jovem teve a caixa postal de seu celular grampeada e os recados foram apagados, dando esperanças à família e à polícia de que ela ainda estivesse viva e monitorando suas mensagens.

Ao anunciar sua demissão, REbekah afirmou que, caso tentasse se manter no cargo, ela se colocaria no centro das atenções e atrapalharia os esforços para resolver os problemas do passado. Ela afirma que não sabia dos grampos.

Saia-justa. O magnata australiano se encontrou privadamente ontem com os pais e a irmã de Milly. Segundo o advogado da família da jovem assassinada, Mark Lewis, Murdoch pediu desculpas "muitas vezes" de forma humilde, abalada e sincera, levando as mãos ao rosto várias vezes.

A família disse ao empresário que a imprensa deve se pautar pela "decência". O magnata deixou o hotel de luxo onde ocorreu o encontro aos gritos de "vergonha", vindos de manifestantes que o esperavam na rua.

Ontem, no pedido público de desculpas, Murdoch lamentou o péssimo comportamento da News International e o sofrimento dos indivíduos afetados.

"Lamentamos não termos agido suficientemente rápido e reconheço que um simples pedido de desculpas não é suficiente", disse a nota do magnata. "Nos próximos dias, enquanto tomamos atitudes concretas para resolver a questão e os danos que causamos, vocês terão mais informações."

Para tentar conter a indignação popular, o grupo decidiu fechar o News of the World, jornal dominical que era publicado há 168 anos e era um dos mais vendidos da Grã-Bretanha. A empresa de Murdoch contratou ainda uma agência de relações públicas para conter a crise. O magnata e seu filho, James, também aceitaram depor sobre o caso no Parlamento britânico, na terça-feira. / REUTERS, AP e NYT

PARA LEMBRAR

Em 2005, a 1ª suspeita

Em novembro de 2005, o tabloide News of the World publica notícia sobre uma contusão no joelho do príncipe William, da qual ninguém sabia. As reclamações da família real levam à abertura de um inquérito e ao início do escândalo. A polícia descobre que o tabloide grampeou famosos, como a atriz Gwyneth Paltrow, o cantor George Michael e o prefeito de Londres, Boris Johnson. Em 2006, o repórter Clive Goodman e o investigador Glen Mulcaire, contratado pelo jornal, foram presos. Na semana passada, o caso voltou à tona após denúncias de que o News of the World também havia grampeado parentes de vítimas dos atentados a Londres, em 2005, e parentes de soldados mortos no Iraque e no Afeganistão.

PONTOS-CHAVE

Pressão política prejudicou compra de TV

Perda de apoio

A crise desencadeada pelo escândalo de grampos fez o Parlamento britânico pressionar Murdoch a desistir da compra da TV por satélite BSkyB

Liberal-democratas

Sem elos com Murdoch, como trabalhistas e conservadores, o partido do vice-premiê Nick Clegg foi o primeiro a defender um veto à compra

David Cameron

Diante da gravidade das denúncias e do envolvimento de seu ex-porta-voz, premiê pediu que Murdoch

desistisse do negócio

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