Escândalo e diálogo com Farc reduzem favoritismo de Santos para a reeleição

Denúncia de vínculo de assessor com narcotraficantes e pontos impopulares que emergiram do diálogos com a guerrilha embaralham cenário para as eleições do dia 25 e acirram a disputa entre o presidente e seu principal adversário, Oscar Iván Zuluaga

Juliana Vines, especial para O Estado, O Estado de S.Paulo

11 Maio 2014 | 02h13

BOGOTÁ - O presidente colombiano, Juan Manuel Santos, candidato à reeleição na votação do dia 25, perdeu a condição de amplo favorito que sustentava desde o início da campanha. O último golpe contra sua imagem enfraquecida foi a renúncia de um assessor, acusado de receber dinheiro do narcotráfico.

O episódio acirrou a disputa entre Santos e seu principal adversário, Oscar Iván Zuluaga, aliado do ex-presidente Álvaro Uribe, e deixou o cenário eleitoral mais incerto.

Santos viu Zuluaga subir nas pesquisas de intenções de voto e transformar-se em uma ameaça real. De março a maio, o candidato uribista cresceu oito pontos porcentuais, segundo números divulgados há duas semanas pelo instituto Cifras y Conceptos. No cenário atual, Zuluaga tem 19% das intenções contra 27% de Santos. Entre os outros candidatos, Enrique Peñalosa, da Alianza Verde, tem 10%, o mesmo que Clara López, do Polo Democrático. Marta Lucía Ramírez, do Partido Conservador, tem 8%.

Em um possível segundo turno, em 15 de junho, o presidente-candidato teria 34% dos votos contra 31% do adversário. Outras pesquisas mostram empate técnico e até a vitória apertada de Zuluaga.

Enquanto o candidato uribista ganha eleitores, Santos perde aprovação. Uma sondagem divulgada na quinta-feira pelo instituto Gallup mostra que 59% dos colombianos desaprovam a gestão de Santos. Em 2010, recém-eleito, o presidente tinha mais de 80% de aprovação.

"Meses atrás era difícil imaginar Santos nessa situação. Mas vários fatores contribuíram para colocar a reeleição em risco", diz Patricia Muñoz Yi, cientista política e professora da Pontifícia Universidade Javeriana.

O primeiro ponto, segundo Patricia, é a dificuldade do governo em divulgar as conquistas da gestão, principalmente na área econômica. No governo Santos, o Produto Interno Bruto (PIB) colombiano superou o argentino e hoje o país é a segunda economia da América do Sul, atrás apenas do Brasil.

Outra possível causa do desgaste de Santos é a duração das negociações de paz do governo com as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc). "O processo tem se prolongado e não se sabe bem quais são os resultados concretos até agora", afirma Darío Acevedo, historiador e professor da Universidade Nacional da Colômbia.

Também há pontos da negociação - pilar do governo Santos - que desagradam parte da população, como a concessão de anistia e a participação de ex-guerrilheiros na política. "O presidente virou refém do processo de paz", diz Acevedo.  

 

Guerra suja. A queda do assessor político de Santos desencadeou uma troca de acusações entre ele e Zuluaga. Na mesma semana, o assessor do candidato uribista também renunciou depois de ser comprovada sua relação com um hacker, preso por interceptar a troca de e-mails entre o governo e as Farc (mais informações na página A14). Agora, ambos acusam um ao outro de fazer "guerra suja". "A primeira vítima nesse caso é a verdade. Nenhum dos dois tem provas", diz Patricia.

 

Para a cientista política, a forma como o presidente vai lidar com as crises nas próximas semanas pode influenciar no resultado das eleições. "Além das denúncias, há outros fatores desestabilizadores, como a paralisação dos produtores rurais. Dependendo de como Santos negociar com eles isso pode ajudá-lo ou atrapalhá-lo." Para a cientista política Sandra Borda, da Universidade de Los Andes, é difícil ver outro vencedor. A única coisa que pode mudar o cenário são outros escândalos envolvendo Santos.

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.