Escândalo é teste precoce para futuro governo

Promessa de divulgar contatos foi resposta certa de Obama

Peter Nicholas*, O Estadao de S.Paulo

23 de dezembro de 2008 | 00h00

Foram necessárias três tentativas em três dias para Barack Obama apresentar uma estratégia que debelasse a crise causada pela suposta tentativa do governador de Illinois, Rod Blagojevich, de vender a cadeira que o presidente eleito ocupava no Senado.Em sua resposta inicial, no dia 9, Obama garantiu que não havia conversado com Blagojevich sobre a vaga e não faria comentários sobre uma investigação em andamento. No segundo dia, aumentou o coro daqueles que pediam a renúncia do governador. As declarações, porém, não conseguiram evitar o surgimento de indagações sobre quais integrantes de sua equipe poderiam ter abordado Blagojevich sobre o assunto.Finalmente, no dia 11, Obama disse que divulgaria o quanto antes quaisquer contatos de sua equipe com o governador democrata. "Tenho certeza absoluta de que nosso escritório não teve nenhum envolvimento em negociações envolvendo minha cadeira no Senado. Se fosse diferente, seria uma violação de tudo o que essa campanha defendeu - e não é assim que nós trabalhamos", afirmou.A reação de Obama foi o primeiro teste para a capacidade da sua equipe de lidar com um escândalo político, mantendo ao mesmo tempo a promessa de fazer um governo transparente, quase sem segredos."Esse foi um teste precoce para sua administração e é assim que deverá lidar com um escândalo depois de assumir, mesmo que o caso não envolva diretamente membros de sua equipe", disse Scott McClellan, ex-secretário de imprensa do presidente George W. Bush.Melanie Sloan, diretora-executiva do movimento Cidadãos pela Responsabilidade e Ética, tem uma opinião parecida. "A primeira resposta - ?não tenho comentários sobre uma investigação em andamento? - foi exatamente igual a que costumamos ouvir do presidente Bush. Mas a promessa de divulgar os contatos de sua equipe foi finalmente a resposta certa."Depois de basear sua campanha à presidência na promessa de que transformará o centro do poder político, Obama obrigou-se a estabelecer os padrões éticos mais elevados, afirmam algumas organizações de vigilância da ética na política. O co-presidente da sua transição, John Podesta, contribuiu para aumentar ainda mais as expectativas quando, no mês passado, prometeu realizar a transição mais aberta da história.Mas ao declarar inicialmente que não estava envolvido no caso, Obama pode ter cometido um equívoco tático e poderia prejudicar sua credibilidade se as declarações se provarem precipitadas, disseram alguns veteranos de crises anteriores na Casa Branca. "É difícil para qualquer pessoa no topo de uma ampla organização - como uma equipe de transição - saber de tudo que está ocorrendo. Então, quando ele afirmou que não conversou com o governador e não tinha conhecimento do caso, estabeleceu um limite que precisa estar preparado para defender", afirmou Mark Fabiani, advogado que representou a Casa Branca durante a presidência de Bill Clinton. John W. Dean, ex-conselheiro da Casa Branca que foi preso durante o escândalo Watergate, disse ser compreensível que Obama tenha demorado alguns dias até encontrar o tom certo. "Esses casos pegam as pessoas de surpresa, especialmente durante o período de transição." Para Dean, o gesto de Obama "não foi uma tentativa de obstruir o andamento das investigações".*Peter Nicholas é jornalista em Washington

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