Escândalo pode redefinir regras da imprensa na Europa

Cultura dos tabloides que fez da Grã-Bretanha um templo das denúncias estridentes

Alan Cowell, O Estado de S.Paulo

14 de julho de 2011 | 00h00

O escândalo de quebra de sigilo telefônico levou a uma ampla reavaliação do equilíbrio entre liberdade de imprensa e privacidade na Grã-Bretanha. Se pessoas menos importantes acharem que seus segredos merecem proteção, como poderão se proteger de jornalistas inescrupulosos que desejem invadir os mais íntimos recados de suas caixas postais?

A pergunta sublinha o contraste da cultura que fez da Grã-Bretanha um templo das denúncias estridentes. O debate chegou ao que parece ser um ponto de virada.

A revolta do público foi tamanha que o primeiro-ministro David Cameron foi obrigado a ordenar a abertura de dois inquéritos - um envolvendo o escândalo dos grampos e outro sobre o comportamento irresponsável da imprensa britânica. Cameron insistiu que a tradição de autorregulação da imprensa britânica demonstrou o próprio fracasso. "Acredito que precisamos de um sistema novo", disse, levando a uma reação dos jornalistas britânicos - que há muito resistem às restrições às suas liberdades. A mídia afirma que é capaz de policiar os próprios assuntos.

"Sendo Cameron um político, talvez possamos desculpá-lo pela tentativa de desviar a culpa", disse o colunista Stephen Glover no jornal The Daily Mail. "Não se pode permitir que ele algeme uma imprensa livre."

As regras continuam carregadas de ambiguidade, governadas por duas cláusulas conflitantes da Convenção Europeia dos Direitos Humanos: uma delas sustenta o direito à privacidade; a outra, o direito à liberdade de expressão. O abismo legal foi preenchido com decisões de juízes em favor de clientes importantes que buscavam manter sua vida particular a salvo dos bisbilhoteiros.

Cameron pediu ainda o fim do relacionamento amistoso entre as organizações jornalísticas influentes e os políticos desesperados por reunir o apoio da imprensa para benefício eleitoral. "Garantir a liberdade de imprensa não significa dizer que a imprensa deva estar acima da lei." "Apesar de ser vital que uma imprensa livre possa dizer verdades ao governo, é igualmente importante que governantes possam dizer verdades à imprensa."

Os jornalistas podem chegar à conclusão de que aqueles que reclamam o direito de cobrar responsabilidade da elite podem se ver submetidos ao mesmo escrutínio.

É JORNALISTA DO "NEW YORK TIMES"

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.