Roland Schlager / APA / AFP
Roland Schlager / APA / AFP

Escândalo político na Áustria deixa conservadores da Europa na berlinda

O chanceler Sebastian Kurz era jovem, adepto das redes sociais e não tinha medo de pegar emprestado algumas táticas dos populistas. No entanto, para alguns, sua queda deixa claro 'o colapso de uma nova narrativa' para os conservadores

Katrin Bennhold, The New York Times, O Estado de S.Paulo

12 de outubro de 2021 | 10h00

BERLIM - Quando Sebastian Kurz se tornou chanceler da Áustria, toda a Europa ficou em alerta. Com apenas 31 anos, ele tinha mudado a sorte de seu enfraquecido partido conservador e, quase da noite para o dia, se tornou um modelo para os líderes de centro-direita em dificuldades em outros lugares do continente.

Quatro anos depois, Kurz foi obrigado a renunciar em meio a uma investigação criminal sobre alegações de que ele usou dinheiro público para manipular pesquisas de opinião e subornar um tabloide por uma cobertura favorável a seu respeito. Sua queda é exclusiva da Áustria, mas pode reverberar em toda a Europa.

Ela acontece em um momento em que o cenário político da Europa parece cada vez mais fragmentado e os outrora poderosos partidos tradicionais de centro-esquerda e centro-direita perderam terreno para uma série de novos atores políticos, inclusive nos extremos.

Jovem e consciente da influência dos meios de comunicação, Kurz se descrevia como alguém que tinha uma fórmula para preservar um grande centro em meio a rupturas. Ele adotou o discurso anti-imigração da cada vez mais poderosa extrema-direita e remodelou o tradicionalmente sisudo Partido Popular da Áustria em uma movimentação política que atraiu centenas de milhares de novos apoiadores.

“Por que não temos alguém assim?”, lamentou o tabloide alemão Bild em outubro de 2017.

Mas as recentes acusações contra ele e uma coleção de provas já divulgadas sugerem que a própria estratégia de comunicação que lhe rendeu votos conservadores em casa e admiração em círculos conservadores no exterior era, na melhor das hipóteses, "profundamente imoral" e, na pior, ilegal, disse Thomas Hofer, observador de longa data da política europeia e consultor político independente em Viena.

“O que estamos vendo na Áustria é o colapso de uma nova narrativa para os partidos conservadores na Europa”, disse Hofer. “Internacionalmente, o modelo de Kurz foi algo que outros estudaram com atenção como uma possível resposta aos populistas de extrema-direita.”

Por toda a Europa, tradicionais partidos de centro-direita enfraquecidos têm lutado para se reinventar, às vezes flertando com a tentação de se direcionarem mais para a direita.

Na vizinha Alemanha, a União Democrata Cristã, partido da chanceler Angela Merkel, que governou o país durante 52 dos últimos 72 anos - inclusive nos últimos 16 - perdeu de forma espetacular a eleição do mês passado. Foi o pior resultado do partido em uma eleição de todos os tempos.

Na França, onde cinco dos oito presidentes desde o início da quinta república em 1958 foram conservadores, o tradicional partido de centro-direita não venceu nenhuma eleição nacional desde 2007.

E na Itália, os democratas cristãos cogovernaram o país por quase meio século depois da Segunda Guerra; no entanto, nas últimas duas décadas, a direita política tem cada vez mais se radicalizado e se fragmentado.

Um dos poucos líderes de centro-direita bem-sucedidos que restam na Europa ocidental é o primeiro-ministro Boris Johnson, no Reino Unido - e ele, assim como Kurz, adotou não apenas a retórica nacionalista anti-imigrante dos populistas, mas, também, seu relacionamento agressivamente simbiótico com os tabloides.

Alguns analistas dizem que os acontecimentos recentes na Áustria sugerem que a estratégia política de Kurz não é um modo de agir viável a longo prazo para trazer de volta o conservadorismo centrista.

“Kurz é alguém que pegou um partido tradicional de centro-direita, arrastou-o para o modo populista e agora está em apuros”, disse Timothy Garton Ash, professor de história europeia na Universidade Oxford.

Segundo Garton Ash, uma lição é que o declínio dos partidos tradicionais inclui tanto os de direita quanto os de esquerda e é estrutural - além de provavelmente irreversível. “Os grandes partidos de centro-direita e centro-esquerda que dominaram a Europa ocidental depois de 1945 não são o que eram e é pouco provável que voltem a ser o que foram”, disse ele.

Por toda a Europa, as eleições têm revelado uma sociedade mais fragmentada, que cada vez mais desafia os rótulos políticos tradicionais.

Durante grande parte da era pós-guerra, os países europeus tendiam a ter um grande partido de centro-esquerda e um grande partido de centro-direita. Os partidos de centro-esquerda defendiam uma classe trabalhadora organizada em poderosos sindicatos, enquanto a centro-direita reunia uma ampla variedade de eleitores das classes média e alta, de religiosos conservadores a donos de empresas de livre mercado. Não era incomum que um dos lados tivesse 40% dos votos.

Os partidos social-democratas perderam esse status há um tempo. Com a menor filiação aos sindicatos e partes do eleitorado tradicional da classe trabalhadora abandonando a centro-esquerda, sua parcela de votos tem encolhido desde o início dos anos 2000.

Se a crise da social-democracia foi um tema conhecido na última década, a crise do conservadorismo está agora em plena exibição. Entretanto, apesar de os partidos conservadores de antigamente terem encolhido, muitas de suas políticas continuam dominantes na Europa, de acordo com analistas.

“Se você olhar para a Alemanha, França ou Itália, não foram os conservadores clássicos de centro-direita que venceram as eleições ou estão no poder, mas as políticas em vigor são tradicionalmente de centro-direita”, disse Dominique Moïsi, cientista político e conselheiro sênior do Instituto Montaigne, com sede em Paris.

Na França, o presidente Emmanuel Macron ampliou o sistema partidário francês ao vencer as eleições com seu movimento En Marche, mas o liberal de mercado a favor da União Europeia, que já foi considerado de centro-esquerda, recentemente direcionou-se de forma clara para a direita.

Mario Draghi, o primeiro-ministro da Itália, não está filiado a nenhum partido, mas por ter sido presidente do Banco Central Europeu é visto como de centro. Mesmo na Alemanha, onde um social-democrata venceu de forma apertada as eleições recentes, o candidato do partido a chanceler, Olaf Scholz, trabalhou como ministro das Finanças de Merkel e está, de certa forma, mais associado ao governo dela do que ao seu próprio partido.

“A nítida divisão de esquerda e direita que dominava a política europeia tornou-se menos clara e não se aplica mais de verdade”, disse Moïsi. “A extrema-direita é muito mais extrema. A centro-direita está se movendo ainda mais para o centro, e a esquerda clássica implodiu completamente como na França ou está lutando pela sobrevivência com os Partidos Verdes. E então você tem um cenário político que é muito mais fragmentado do que costumava ser."

Isso não impediu alguns líderes políticos de procurar maneiras para ressuscitar o passado - e de olhar para Kurz como um modelo. “Você pode ver na Áustria que Sebastian Kurz consegue, como um jovem político conservador, ser o número 1 entre os jovens”, disse Tilman Kuban, líder da ala jovem dos conservadores alemães, dias após a devastadora derrota eleitoral de seu partido.

Christoph Ploss, chefe dos democratas-cristãos em Hamburgo, também apontou a Áustria como um “bom exemplo” de como trazer de volta o conservadorismo. "Lá", disse ele, "o partido voltou com uma direção clara." Ambos não quiseram se pronunciar ao serem questionados, na semana passada, se as acusações contra Kurz mudaram suas opiniões.

O que exatamente a renúncia de Kurz significa é difícil de dizer. Ele renunciou ao cargo de chanceler no sábado depois que seus companheiros de coalizão do Partido Verde disseram que não podiam continuar governando com ele devido às atuais alegações e ameaçaram uma moção de confiança. Mas ele continua sendo o líder de seu partido e um legislador no Parlamento.

Alguns preveem que, mesmo depois de seu sucessor consagrado e leal aliado, o ministro das Relações Exteriores, Alexander Schallenberg, tomar posse como chanceler na segunda-feira, Kurz ainda terá as rédeas e poderá até mesmo organizar um retorno em algum momento.

Outrora um líder da juventude conservadora, que distribuía preservativos de marca como uma piada de campanha e, em algum momento, ganhou a reputação de ministro da integração liberal, Kurz deu uma guinada brusca para a direita, ganhando eleições e entrando em uma coalizão com o Partido da Liberdade, de extrema-direita.

Depois que seu primeiro governo colapsou há dois anos, ele foi reeleito e aumentou ainda mais a parcela de votos de seu partido. E então formou uma coalizão improvável com o ainda menor Partido Verde.

De muitas maneiras, Kurz representa menos o conservadorismo tradicional e mais o típico oportunismo político associado a uma nova linha de política de direita que se desenvolveu na Europa no espaço entre a centro-direita de antigamente e uma safra de barulhentos partidos de extrema-direita no extremo.

“A nova política de direita que é sobre imigração e identidade - aquela política de direita que você vê em toda a Europa”, disse Garton Ash. Segundo ele, é pouco provável que a tentação de se direcionar para a direita desapareça totalmente, mesmo depois dos escândalos que envolvem a Áustria.

“Pode-se dizer que os populistas mais perigosos são aqueles que menos se parecem com populistas”, disse Garton Ash. “Isso é verdade para Johnson e era verdade para Kurz.”

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