Escândalo pré-eleitoral abala a estrutura do Likud

Um escândalo em torno de acusações de compra de votos e suborno causou um recuo do Likud, partido do primeiro-ministro Ariel Sharon, nas pesquisas para as eleições de 28 de janeiro de 2003, após semanas de previsões segundo as quais a agremiação conservadora venceria com facilidade o pleito. Apesar de o Likud ainda estar bem à frente do rival Partido Trabalhista - e Sharon ainda ser considerado o favorito para se reeleger primeiro-ministro -, doses diárias do escândalo, inclusive o suposto envolvimento do crime organizado, causaram suas vítimas na última semana. "É evidente que o Likud está perdendo a vantagem", comenta o analista político Akiva Eldar. "A mudança nas pesquisas mostra que as pessoas levam isso a sério. Sharon está bastante preocupado." O Likud realizou, em 8 de dezembro, eleições internas nas quais 2.940 membros do Comitê Central do partido escolheram os candidatos da chapa para o Knesset (Parlamento). O escândalo veio à tona pelo fato de uma novata na política - uma jovem garçonete ligada a uma família com investimentos em cassinos e supostas ligações com o submundo - ter acabado à frente de políticos populares como o prefeito de Jerusalém, Ehud Olmert. Em seguida, inconfidentes do partido e candidatos descontentes com a situação começaram a alimentar acusações de que candidatos teriam subornado membros do Comitê Central, com dinheiro e estadias gratuitas em hotéis luxuosos. A unidade de combate a fraudes da polícia federal israelense e o procurador-geral Elyakim Rubinstein já iniciaram suas investigações. Haim Cohen, um candidato derrotado, teria dito a policiais que um membro do Comitê Central do Likud pediu US$ 70.000 para lhe garantir uma vaga no Knesset. Cohen foi citado dizendo que o homem aproximou-se dele "e fez um sinal com os dedos, sinalizando que queria grana". Também há acusações segundo as quais membros da máfia penetraram na estrutura do partido: o chantagista condenado Moussa Alperon é um novo membro do comitê eleitoral do Likud, assim como Shlomi Oz, que passou 32 meses na prisão por extorsão e conspiração, e já foi membro da gangue de Alperon. "Esta é a primeira vez que elementos criminosos promovem, de forma tão aberta, a entrada de pessoas no Knesset", comenta Menachem Amir, professor de criminologia na Universidade Hebraica de Jerusalém. "Há uma ameaça à democracia quando nossos líderes representam grupos criminosos. O grande símbolo da democracia é o parlamentar." Enquanto isso, a imprensa israelense esboçou ligações entre diversas famílias ligadas aos crime organizado e o filho de Sharon, Omri - uma eminência parda do Likud. O jornal ?Haaretz? publicou que Omri Sharon entregou pessoalmente formulários de registro no partido a membros da família Jarushi - alguns dos quais são suspeitos de tráfico de drogas - e afirma que o filho do primeiro-ministro é amigo pessoal de Oz. Numa rara entrevista à televisão, Ariel Sharon defendeu seu filho com veemência. "Meu filho Omri nada tem a ver com os elementos criminosos que conseguiram entrar para o Comitê Central", disse ele, nesta semana, ao Canal 1 da TV israelense. Não está claro se os escândalos melhorarão a sorte do Partido Trabalhista, que tem seu próprio problema de credibilidade, mas numa escala muito menor. Investigadores procuram evidências sobre suposta fraude eleitoral nas primárias do partido, especialmente em remotos vilarejos drusos. Antes das denúncias, as pesquisas apontavam o Likud com 40 cadeiras, 20 a mais que os trabalhistas. Duas pesquisas recentes apontam a queda da vantagem do Likud para 35 a 23 e 33 a 22, respectivamente. Os analistas ainda não se atrevem a prever uma derrota do Likud, mas não há mais a sensação de que a vitória do partido conservador é certa. "As questões são quantas cadeiras possui o Likud, a quantas pode chegar e qual será o alcance da investigação policial nas fileiras do partido", disse Hemi Shalev, colunista do jornal ?Maariv?.

Agencia Estado,

20 Dezembro 2002 | 19h28

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