Escândalo sexual altera cena eleitoral na França

Acusado de estuprar uma camareira em NY, o diretor do FMI Dominique Strauss-Kahn liderava a preferência entre os eleitores de esquerda

Andrei Netto, O Estado de S.Paulo

16 de maio de 2011 | 00h00

CORRESPONDENTE / PARIS

A prisão do diretor executivo do FMI, Dominique Strauss-Kahn, representa um abalo nas pretensões eleitorais do maior peso pesado do Partido Socialista nas eleições presidenciais de 2012 na França. Líder nas pesquisas, Strauss-Kahn era celebrado por militantes de esquerda como o homem capaz de tornar viável o sonho de retomar o poder, 30 anos após a primeira vitória de François Mitterrand. Agora, opositores atacam.

Em pesquisa publicada na semana passada pelo instituto Viavoice, Strauss-Kahn era o preferido de 39% dos militantes de esquerda, contra 20% do ex-secretário-geral do partido, François Hollande, e 11% da ex-deputada e ex-candidata em 2007, Ségolène Royal. Entre os pré-candidatos à presidência de todos os partidos, o diretor executivo do FMI também era líder, com 27%, contra 20% do atual presidente, Nicolas Sarkozy, e 19% de Marine Le Pen, segundo o Ifop.

Um inferno astral teve início na vida de Strauss-Kahn há dez dias, quando ele foi flagrado por um fotógrafo da France Presse entrando em um Porsche com a mulher, a jornalista Anne Sinclair. A partir de então, foi alvo de uma onda de críticas a seu padrão de vida. Na França, os sinais excessivos de riqueza não são bem vistos e o partido do diretor executivo do FMI foi chamado de "esquerda caviar".

O golpe que talvez venha a ser mortal, porém, veio de Nova York. Desde os primeiros minutos da manhã de ontem, em Paris, líderes políticos de partidos de oposição se revezaram para apontar o líder socialista como culpado. Marine Le Pen, presidente da Frente Nacional e candidata da extrema direita à presidência, decretou: "Strauss-Kahn está desacreditado".

François Bayrou, líder do Movimento Democrático e candidato a presidente em 2007, também fustigou o rival. "É necessário que a investigação prossiga, mas desde agora já podemos medir as consequências para ele, seu partido e para a imagem da França no mundo."

Na União por um Movimento Popular (UMP), partido de Sarkozy, a postura foi semelhante. Para o deputado Bernard Debré, Strauss-Kahn é "pouco recomendável". "Um homem como ele, que chafurda no sexo há muito tempo, humilha a França", disse.

Já no governo de Sarkozy, talvez o maior beneficiado do escândalo, a postura foi moderada. François Baroin, porta-voz do Palácio do Eliseu, dispensou a crítica política a Strauss-Kahn e recomendou "prudência".

Surpreendente foi a divisão interna no Partido Socialista. Na maior agremiação da esquerda na França, a prisão do diretor executivo do FMI pareceu um acerto de contas. Enquanto os pré-candidatos à presidência pediram que se respeite a "presunção de inocência", escalões inferiores partiram para a briga.

PARA LEMBRAR

Economista brilhante, ex-ministro da Economia bem-sucedido, diretor executivo de um FMI em renascimento, Dominique Strauss-Kahn é um líder que vive às voltas com escândalos sexuais. Fontes do Partido Socialista já falavam há dois anos que um "gosto por sexo grupal" poderia atrapalhar sua carreira política. O socialista envolveu-se em polêmicas pelo menos duas vezes: em 2002, com a jornalista Tristane Banon, e em 2008, com uma subordinada do FMI.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.