Escândalos afetam promessas de Bachelet

Presidente do Chile estimula reforma política para superar crise de popularidade

RODRIGO CAVALHEIRO, ENVIADO ESPECIAL , SANTIAGO, CHILE, O Estado de S.Paulo

19 de abril de 2015 | 02h03

O bar The Clinic, a dois quilômetros do palácio presidencial La Moneda, centro de Santiago, é um bom lugar, senão o melhor, para o chileno pôr em prática um costume tão recente quanto estendido, encher a boca em protesto contra o filho da presidente Michelle Bachelet.

O primogênito Sebastián Dávalos, de 36 anos, é alvo de denúncias de especulação imobiliária e tráfico de influência que fizeram a reprovação materna saltar de 22% para 61% em um ano, segundo a consultoria Adimark. Indiretamente, ele e sua mulher Natalia - noragate é o apelido do caso - mudaram o eixo de ação do governo. A indignação que não leva a grandes marchas, mas domina as conversas no táxi, em churrascos ou em bares, desviou o foco presidencial das reformas educacional e constitucional, promessas de campanha, para uma revisão do elo entre políticos e empresas.

Com a menor aprovação de seus dois mandatos, 31%, Bachelet delegou há um mês a 16 personalidades "insuspeitas" a tarefa de elaborar um pacote anticorrupção que use como referência "as melhores práticas mundiais", segundo ela.

A Comissão Engel - referência ao líder do grupo, Eduardo Engel, que leciona economia na Universidade do Chile e em Yale -, tem políticos e acadêmicos de diferentes matizes ideológicos. Seu objetivo é propor mudanças que impeçam um funcionário público de, por exemplo, passar à mulher dele informações sigilosas sobre em um terreno no sul do país que se valorizará três vezes e renderá US$ 3,8 milhões de lucro.

Essa é a acusação contra Dávalos, cientista político que renunciou ao cargo não remunerado na área social do governo, e contra Natalia, que no dia 10 pediu desculpas e garantiu: a sogra não sabia de nada. O terreno em questão foi comprado com um empréstimo de US$ 10 milhões que Dávalos conseguiu no Banco do Chile para a empresa da mulher. O crédito foi aprovado um dia depois de sua mãe ganhar a eleição, em 15 dezembro de 2013.

"Mudou a prioridade. Já não se trata de eliminar a Constituição de (Augusto) Pinochet, como estava no programa de governo, mas frear a promiscuidade entre dinheiro e política, a corrupção e o tráfico de influência", afirma o sociólogo e consultor Eduardo Tironi, um dos mentores da campanha do "não" no plebiscito que marcou a saída de Pinochet do poder após 17 anos, em 1988.

"A comissão mostrará sua proposta em alguns dias e todos os partidos se comprometeram a aprová-la em um pacote rápido. Isso pode significar a maior reforma institucional desde a volta da democracia. De certo modo, esse grupo trabalha como uma espécie de Assembleia Constituinte", avalia Tironi.

Reformas. Em setembro, Bachelet aprovou uma reforma tributária que permitirá arrecadar US$ 8 bilhões a mais por ano, 3% do PIB. Subiu de 20% para 25% o imposto de empresas e reduziu de 40% para 35% a taxa máxima para pessoas.

Foi o primeiro passo para financiar uma reforma educacional que promete universalizar o ensino gratuito - algo já em curso no ensino primário e secundário.

Sua terceira grande promessa é a reforma constitucional a que se refere Tironi, a mais difícil. A coalizão governista tem 67 deputados e 21 senadores e precisaria de 72 e 23, respectivamente. "A crise não tira votos de Bachelet no Parlamento. Tira autoridade para que imponha os projetos à própria coalizão", diz o sociólogo.

As dificuldades da presidente começaram no ano passado pela queda no preço do cobre, a diminuição dos investimentos diante da nova carga tributária e a redução no PIB - crescimento de 1,9% em 2014, ante 5,4% de média nos quatro anos anteriores.

A situação só não é pior porque a avaliação da oposição é péssima - só aprovada por 16%, segundo o mesmo Adimark. O caso Penta, de financiamento irregular de políticos, afetou sobretudo a direita e levou grandes empresários à prisão em 7 de março. Fecha a trindade dos escândalos a chamada conexão Soquimich, empresa de mineração do ex-genro do ditador Augusto Pinochet, Julio Ponce Lerou, investigado por pagamento ilegal a políticos e sociedades ligadas a partidos - incluindo a campanha de Bachelet.

Segundo Tironi, o fato de a popularidade de Bachelet ter caído a ponto de precisar desmentir rumores de que renunciaria não indica que se suspeite dela. "Ela sofreu diretamente porque na própria família há valores opostos aos que diz defender", acrescentou.

"O chileno não aceita ser chamado de ladrão. Neste país é socialmente aceito matar, mas não roubar", opina o dentista Patricio Doñas, um dos frequentadores do The Clinic, bar de temática política que mantém uma parceria com a revista satírica homônima. "Sempre nos orgulhamos de que éramos limpos e seguíamos as regras. Hoje nossa essência está exposta, como numa piada cruel", teoriza Doñas.

Ele ainda não provou o lanche do momento no bar, que troca de cardápio a cada três meses, de acordo com a maré política. O Cerdo Dávalos (Porco Dávalos) é um sanduíche de pernil com cebola, maionese e alho que custa 5,9 mil pesos (R$ 29).

O nome de cada produto, explica o gerente Patricio Mora, tem influência direta no êxito que terá, pois os frequentadores estão acostumados a discutir política e divulgar as iguarias pelo Twitter. O batismo de cada lanche segue uma receita. "Primeiro, decidimos em quem vamos bater. Depois vemos que ingredientes têm a ver com o caso ou com a pessoa. Neste em particular, achamos conveniente usar o porco", explica.

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