Seth Wenig/AFP
Seth Wenig/AFP

Escândalos de Cuomo impulsionam candidaturas de mulheres à prefeitura de Nova York

Candidatas usam denúncias de assédio sexual como argumento em favor de uma mulher no comando da cidade

Emma G. Fitzsimmons, The New York Times

22 de março de 2021 | 20h00

Na disputa pela prefeitura de Nova York, existe um limite invisível que nunca foi ultrapassado, mas que nem por isso deixou de ser mencionado por várias mulheres que concorrem ao cargo neste ano: a cidade já teve 109 prefeitos, nenhum deles uma mulher.

Por isso, essa barreira tem estado no centro das atenções em encontros como um evento recente de arrecadação de fundos para a candidata democrata Kathryn Garcia.

Realizado online e com a presença de dezenas de mulheres, muitas delas funcionárias veteranas da administração de Nova York, o evento foi promovido na semana passada no Dia Internacional da Mulher.

Mas a missão de Garcia foi especialmente relevante também por outro motivo: no mesmo dia, dois advogados de destaque foram indicados para comandar uma investigação independente das acusações de assédio sexual feitas contra o governador Andrew Cuomo.

Ex-comissária de saneamento de Nova York, ela fez questão de destacar esse momento. "O governador de Nova York nos está mostrando que é hora de vermos mais mulheres em cargos de poder", disse Garcia ao grupo. "Em 2021, não existe homem certo para o cargo."

Todas as mulheres candidatas a prefeita falaram da natureza histórica de suas campanhas políticas, aspecto mencionado em seus esforços de arrecadação de fundos e nas redes sociais.

Mais recentemente, elas também vêm falando da necessidade de acabar com a cultura política dominada por homens que abriu espaço ao escândalo de assédio sexual que cerca Cuomo.

Muitos dos críticos mais fortes do governador são mulheres. Duas democratas, Kathryn Garcia e Maya Wiley, estiveram entre os primeiros candidatos à prefeitura a pedir a renúncia do governador. Uma terceira, Dianne Morales, defende o impeachment do democrata.

Faltando apenas três meses para a primária democrata para prefeito, em 22 de junho, o mundo político está fervilhando com discussões sobre os escândalos de Cuomo. Dois dos candidatos homens mais destacados, Andrew Yang e Eric Adams, adotaram abordagem mais cautelosa, tendo dito recentemente que ele deveria se afastar até as investigações serem concluídas.

Os problemas do governador deram às candidatas mais munição para fortalecer o argumento de que é hora de ter uma mulher liderando Nova York. As candidatas têm feito críticas a Cuomo e compartilhado suas histórias de assédio sexual e sexismo na política. E argumentaram que, se forem eleitas, terão um estilo de liderança mais inclusivo que o de Cuomo, empoderando funcionários e evitando o bullying.

Ex-assessora do prefeito Bill de Blasio e ex-diretora do Conselho de Revisão de Queixas Civis, Maya Wiley, a candidata mulher mais bem posicionada nas pesquisas e nos esforços de arrecadação de fundos, pediu aos candidatos homens que se unam a ela para exortar Cuomo a renunciar. "Está claro que este é um homem que se comporta desse jeito", disse Wiley. "Não se trata de um erro isolado. Não se trata de interpretação equivocada. É um conjunto de comportamentos e é quem ele é."

Especialistas políticos têm muitas teorias para explicar por que Nova York é um ambiente tão difícil para mulheres que se candidatam a cargos políticos, desde o sexismo declarado até o grande aparelho político, passando pelos desafios de levantar grandes somas de dinheiro.

Ruth Messinger, ex-presidente do distrito de Manhattan, listou três entraves que enfrentou em 1997, quando foi a candidata democrata na disputa com o prefeito republicano em exercício, Rudy Giuliani.

Os eleitores a achavam pouco atraente, os sindicatos eram "redutos de hegemonia masculina" e homens relutavam em doar dinheiro a ela, disse Messinger em entrevista. Ela recordou que em um grupo de discussão, um homem comentou: "Eu jamais sairia com ela".

Messinger tinha encontros com grandes doadores e pensava que havia se saído bem, e então os maridos mandavam suas mulheres preencherem um cheque. "As mulheres preenchiam com valores menores."

Na corrida de 2013 pela prefeitura, Christine Quinn, ex-presidente da Câmara de Vereadores de Nova York, era a primeira colocada nas pesquisas, mas perdeu para De Blasio na primária democrata após alguns eleitores dizerem que a achavam antipática -uma palavra profundamente influenciada por viés de gênero é frequentemente usada como figura sexista, segundo pesquisadores que estudam mulheres e política.

Outra questão era que Quinn tinha vínculos estreitos com o então prefeito Michael Bloomberg, cuja popularidade havia diminuído após três mandatos na prefeitura. Ela diz que queria ter sido mais autêntica e abraçado sua fama de ser brusca. "Deve ser exatamente isso o que é preciso para ser prefeita de Nova York: ser uma chata de galochas com coração de manteiga, e eu sou essas duas coisas", disse ela.

As primeiras prefeitas mulheres de grandes cidades americanas como Chicago e Houston foram eleitas nos anos 1970 e 1980. Hoje, 27 das cem maiores cidades do país são administradas por mulheres, incluindo Lori Lightfoot em Chicago e Keisha Lance Bottoms em Atlanta.

As candidatas mulheres à prefeitura de Nova York se sentiram encorajadas pelo sucesso da deputada Alexandria Ocasio-Cortez, cuja vitória inesperada na primária de 2018, derrotando o deputado democrata em exercício Joseph Bottoms, mostrou que as mulheres podem contornar as autoridades partidárias e mobilizar os eleitores diretamente. "A grande máquina política é algo que foi construído por homens e para homens", diz Morales. "Em Nova York, não sei se somos tão progressistas quanto gostamos de pensar."

Das principais candidatas mulheres neste ano, duas são não brancas: Wiley, que é negra, e Morales, ex-executiva de uma entidade sem fins lucrativos, que é afro-latina.

As mulheres que disputam a primária democrata focam questões diferentes. Morales é mais de esquerda e quer cortar US$ 3 bilhões do orçamento da polícia. Wiley enfatiza seu histórico de atuação com os direitos civis e tem um plano para a criação de 100 mil empregos. Garcia destaca sua experiência no governo e quer melhorar os serviços básicos e a qualidade de vida na cidade. Outra candidata mulher, Loree Sutton, general aposentada do Exército, desistiu da corrida democrata na semana passada.

Enquanto os candidatos continuam a aparecer em uma série interminável de fóruns online, as candidatas mulheres parecem estar criando um vínculo. Em um fórum onde foi pedido aos candidatos que apontassem um segundo nome a escolher para prefeito, Wiley e Morales apontaram uma para a outra. Morales diz sentir profundamente que é hora de uma mulher não branca ser eleita.

"Há um nível de solidariedade que todas sentimos umas pelas outras, um reconhecimento das barreiras e dos obstáculos que superamos diariamente apenas para podermos estar neste espaço", explicou.

As mulheres têm conquistado avanços nas legislaturas estaduais e no Congresso, mas alguns eleitores ainda não conseguem imaginar uma mulher como presidente, governadora ou prefeita, diz Debbie Walsh, diretora do Centro para Mulheres Americanas e Política, na Universidade Rutgers.

"Quando você é a autoridade máxima, é preciso haver uma percepção de força e autoridade", afirma Walsh. "Essa é uma das dificuldades que as mulheres enfrentam: o estereótipo de que elas não têm força ou determinação suficiente."

Esse estereótipo é visto como especialmente irritante por Kathryn Garcia, que foi a administradora a quem De Blasio recorria para resolver crises, assumindo a liderança da agência habitacional da prefeitura de Nova York e gerindo o programa de alimentação da cidade durante a pandemia.

Ela disse que as pessoas a subestimam constantemente como candidata a prefeita e que algumas já sugeriram que ela poderia ser uma ótima vice-prefeita. "É frustrante ser vista como a pessoa mais qualificada para o cargo e categorizada automaticamente como alguém que deveria ser a vice de um homem menos qualificado", disse ela.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.