REUTERS/Jaime Saldarriaga
REUTERS/Jaime Saldarriaga

Escândalos e guinada à direita marcam eleições na América Latina em 2018

De acordo com analistas, casos de corrupção e governos impopulares aumentam insatisfação com políticos tradicionais e tornam o cenário eleitoral imprevisível nas sucessões presidenciais de México, Colômbia, Venezuela e Brasil

Tupac Pointu, Montevidéu / France-Presse, O Estado de S.Paulo

01 Janeiro 2018 | 05h00

MONTEVIDÉU - A América Latina terá um ano de 2018 cheio de eleições em vários países importantes, como Colômbia, Brasil, México e Venezuela. De norte a sul, as votações serão influenciadas pelos intermináveis escândalos de corrupção envolvendo governos impopulares, por uma eventual guinada à direita e pelo surgimento de forças de fora da política tradicional.

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Entre os temas que mais afetarão os eleitores latino-americanos em 2018 estão os casos de corrupção, responsáveis pelo sentimento generalizado de insatisfação com a classe política. O escândalo da Odebrecht, envolvida em uma rede de propinas em troca de contratos públicos, atingiu a alta esfera do poder em vários países. "A corrupção está muito enraizada na região", diz Gaspard Estrada, diretor do Observatório da América Latina do Instituto de Estudos Políticos (Sciences Po) de Paris. 

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Para Fiona Mackie, diretora de América Latina da Economist Intelligence Unit, o caso da Odebrecht "abalou a cena política regional". "Ele terá um impacto profundo no próximo ciclo político", afirma Fiona. "Diante de casos de desvio de dinheiro público e de enriquecimento ilícito, comuns na América Latina, há uma impaciência dos eleitores, que eles estão realmente cansados."

Segundo analistas da Eurasia, as eleições de Brasil, Colômbia e México serão dominadas pela revolta contra a política tradicional. "Por isso, serão difíceis de prever e podem terminar com surpresas negativas", advertiu a consultoria em relatório recente. Ainda de acordo com a Eurasia, os candidatos que melhor capitalizarem esse sentimento serão os mais competitivos, como mostrou a eleição no Chile, com o sucesso da extrema esquerda, de Beatriz Sánchez, e da direita radical, de José Antonio Kast.

"Outra marca das eleições de 2018 serão os candidatos de fora do establishment. Especialmente em razão da corrupção, que desqualificou a classe política tradicional", afirma Estrada, que lamenta a "crise de liderança regional" e teme o surgimento de outsiders com "discurso retrógrado" que tentam "reinventar a democracia".

"Alguns políticos tradicionais querem ser vistos como outsiders, mas são parte da política tradicional graças a um jogo de alianças", diz Fiona Mackie. Como exemplo, ela cita um dos principais candidatos à presidência da Colômbia, Sergio Fajardo, que lançou um novo movimento político, e Margarita Zavala, no México, que deixou o Partido da Ação Nacional (PAN) para se apresentar como independente.

Segundo a Eurasia, no México, o candidato que deve aproveitar melhor este contexto é o esquerdista Andrés Manuel López Obrador. Ex-prefeito da capital, ele já foi candidato duas vezes. Agora, abandonou o tradicional Partido da Renovação Democrática (PRD) e fundou o Movimento da Regeneração Nacional (Morena), para ganhar novo fôlego.

À direita

A vitória do conservador Sebastián Piñera no Chile, em dezembro, confirmou a guinada do continente à direita, depois que Mauricio Macri chegou ao poder na Argentina, Michel Temer, no Brasil, e Pedro Pablo Kuczynski, no Peru.

Para Estrada, houve um desgaste dos governos de esquerda na região, que abriu caminho para forças mais conservadoras. "O que aconteceu foi uma alternância natural", afirma. "Mas, além do aspecto político, em 2018, o elemento central será a economia, que vai mal em vários países."

A maior incógnita eleitoral do ano é se o chavismo fará ou não eleição presidencial na Venezuela. Para a Eurasia, o presidente Nicolás Maduro "permanecerá no poder e, provavelmente, vencerá em um processo controlado", embora a economia não abra nenhuma perspectiva de dias melhores para os venezuelanos. 

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