Escassez agrava crise venezuelana

Antes às turras com a livre iniciativa, chavismo se viu obrigado a buscar contato com empresários para evitar desabastecimento completo

ANDREW, ROSATI, CHRISTIAN SCIENCE MONITOR, O Estado de S.Paulo

21 de maio de 2013 | 02h03

Na Venezuela, o sucessor de Hugo Chávez parece tentar uma aproximação com os grandes empresários, em busca de auxílio para enfrentar a falta generalizada de bens de consumo básicos e uma inflação que se aproxima dos 30% ao ano.

Na semana passada, o recém-eleito presidente Nicolás Maduro recebeu Lorenzo Mendoza, o bilionário que comanda a Polar, a maior empresa privada do país, para uma conversa no palácio presidencial. Mendoza passou anos às turras com o governo Chávez. Agora, ele e Maduro parecem ter chegado a um entendimento, despertando especulações de que talvez esteja em curso uma mudança de atitude do governo em relação ao grande empresariado venezuelano.

Maior fabricante de alimentos do país, a Polar tem uma linha de produtos que vai da cerveja à farinha de milho - principal ingrediente das arepas, a base da dieta venezuelana. No início da semana passada, Mendoza criticou Maduro por ele ter dito que sua empresa estaria estocando comida numa tentativa de desestabilizar o governo.

"O encontro (entre o empresário e o presidente) está sendo visto, no mínimo, como um primeiro passo na direção de uma melhoria das relações do governo com o setor privado", diz Jessica Grisanti, economista sênior da consultoria Ecoanalítica, de Caracas.

Durante os 14 anos em que esteve no poder, Chávez enfureceu os líderes empresariais e os economistas venezuelanos com a nacionalização de mais de mil companhias e ativos, e os rígidos controles de preços impostos por seu governo. E, ainda que não tenha levado a coisa adiante, Chávez com frequência ameaçava estatizar a Polar.

"O principal ponto de concordância foi a decisão de não politizar a questão dos alimentos", disse Mendoza, acrescentando estar "extremamente satisfeito" com a oportunidade de trocar ideias com o novo presidente sobre alternativas para estimular a produção nacional de gêneros alimentícios.

Há várias semanas, os venezuelanos têm tido dificuldade para comprar produtos básicos, como leite e papel higiênico. O gesto de Maduro pode sinalizar uma reaproximação entre o combalido setor privado do país e um governo que se vê diante de níveis recordes de escassez. "É evidente que (o governo) está finalmente se dando conta do equívoco de suas políticas", diz Ismael Pérez Vigil, presidente da Confederação das Indústrias da Venezuela (Conindustria). "Estão percebendo que não dá para atender as necessidades do país impondo controles ao mercado."

Nelson Merentes, o recém-nomeado ministro das Finanças, teria uma reunião com lideranças empresariais, com o intuito de dar prosseguimento ao esforço de estabelecer um diálogo.

Vigil, cuja confederação representa mais de 80% das indústrias venezuelanas, explica que a questão central para os empresários são as restrições cambiais. Segundo a Consecomercio, uma câmara de comércio sediada em Caracas, os dólares são vitais para a economia venezuelana, já que cerca de 70% dos bens consumidos no país são importados ou produzidos a partir de insumos adquiridos no exterior. Apesar da reaproximação, os céticos duvidam que isso seja sinal de alguma mudança de maior alcance político no horizonte imediato.

O cenário de escassez representa um risco político sério para Maduro, que ainda tenta se livrar das acusações de fraude eleitoral, depois de sua apertada vitória nas urnas no mês passado, diz Luis Vicente León, presidente do instituto de pesquisas Datanalisis."Uma coisa está clara: o debate hoje na Venezuela é de natureza econômica", diz León. "E a recusa em enfrentá-lo publicamente seria desastrosa para a popularidade de Maduro." / TRADUÇÃO DE ALEXANDRE HUBNER

Análise

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.