Escassez amplia crise no Egito

A falta de moeda forte para importar combustível, essencial para a agricultura, faz o preço dos alimentos disparar

DAVID D. KIRKPATRICK - THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

08 de abril de 2013 | 02h03

Em razão da escassez de combustível os preços dos alimentos dispararam. Os apagões sucedem-se mesmo antes do verão. E tiroteios em filas para compra de gasolina provocaram a morte de pelo menos cinco pessoas e ferimentos em dezenas nas últimas duas semanas.

O motivo da crise, segundo economistas, é a escassez de moeda forte que o Egito necessita para as importações de combustível. O que levanta dúvidas quanto à capacidade do país de continuar importando trigo, essencial para o abastecimento de pão, que é subsidiado, causando temores de uma catástrofe econômica num momento em que o governo luta para acalmar os violentos protestos realizados por seus rivais políticos.

Os agricultores já não dispõem de combustível para as bombas que irrigam seus campos e temem não ter gasolina suficiente para os tratores usados na colheita de trigo antes de ele apodrecer nos campos.

As autoridades americanas vêm alertando para um desastre a menos que o Egito realize em breve uma série de cortes de subsídios e aumente os impostos condições exigidas para o país conseguir um empréstimo de US$ 4,8 bilhões do Fundo Monetário Internacional. O que também pode convencer outros possíveis financiadores de que o Egito tem capacidade suficiente para cumprir suas obrigações e dessa maneira obter outros bilhões de empréstimos necessários para cobrir seu enorme déficit.

Mas temendo uma reação da sociedade num momento em que as ruas já estão em ebulição, o governo do presidente Mohammed Morsi tem resistido a um acordo com o FMI, insistindo que o Egito pode esperar.

Aqueles que afirmam que o Egito está sem condições de comprar combustível suficiente estão "tentando trazer problemas para Morsi e seu partido", disse Naser el-Farash, porta-voz do Ministério do Comércio Interno e Abastecimento e membro do braço político da Irmandade Muçulmana. Para Farash, a escassez de combustível deve-se à corrupção que já vem desde o governo de Hosni Mubarak, juntamente com a estocagem ilegal do produto inspirada no temor disseminado pela mídia privada. "Eles estão contra a revolução", disse.

Para analistas independentes, a falta crescente de combustível e o medo de cessarem as importações de trigo são hoje as mais graves ameaças à frágil estabilidade do Egito. "Existe potencial para que as coisas fiquem muito, mas muito ruins", disse Yasser el-Shimy, analista do International Crisis Group.

Há dois anos o Egito mantém conversações, sem resultado, com o FMI e o governo ainda hesita em adotar um pacote de ajustes politicamente dolorosos, mesmo porque os preços e o desemprego em alta tornam a adoção de tais medidas mais difícil a cada dia que passa. "Eles agem com base na ideia de que o Egito é grande demais para se deixar que vá à falência, que os EUA e o Ocidente intercederão em seu favor", disse Shimy. "Acham que o Egito tem o direito de obter o empréstimo e penso que provavelmente continuarão insistindo nesse sentido".

Membros do governo Morsi afirmaram que preferem esperar até a eleição de um novo Parlamento, que poderá indicar que há uma concordância mais ampla da sociedade quanto à necessidade de mudanças. Mas uma decisão do Tribunal anulando a lei eleitoral provocou o adiamento da eleição para, no mínimo, o quarto trimestre do ano, e muitos economistas afirmam que o Egito não conseguirá sobreviver até lá.

Os subsídios na área energética constituem 30% dos gastos do governo, disse Ragui Assaad, do Fórum de Pesquisa Econômica. O país importa a maior parte do combustível que necessita e pela primeira vez no ano passado foi obrigado a importar gás natural para gerar eletricidade - razão dos recentes blecautes. O Egito também importa 75% do trigo consumido, misturando o trigo importado de qualidade superior com o que produz, de qualidade inferior, para melhorar o pão que é subsidiado.

Mas os dois anos de tumulto nas ruas desde a deposição de Mubarak dizimaram o turismo e o investimento estrangeiro, paralisando a economia. As reservas em moeda forte do governo caíram de US$ 36 bilhões, há dois anos, para US$ 13 bilhões. Cerca de metade das reservas é em ouro, enquanto que bilhões de dólares são devidos para empresas estrangeiras que operam os campos de gás e petróleo do Egito. Com a saída da moeda forte, o valor da libra egípcia também caiu.

Dependência. O óleo diesel é um problema crucial nesta crise, em parte porque o Egito não tem refinarias e depende inteiramente das importações. Além disso, o diesel é essencial para grande parte da economia. Não só é usado nas máquinas de irrigação e colheita dos agricultores, mas é o combustível usado pelos caminhões, o que influi no preço de praticamente tudo o que é transportado.

Farash, do Ministério do Abastecimento, insistiu que o Egito ainda importa o mesmo volume de combustível de antes da revolução e responsabilizou o sistema de distribuição repleto de falhas pela crise. Os caminhões-tanque vendem o diesel no mercado negro antes de chegar aos postos de gasolina, disse. Farash afirmou que o governo Morsi está adotando um sistema de "cartão inteligente" para os caminhões-tanque de modo a garantir que todo o suprimento de combustível chegue ao seu destino. "Em uma ou duas semanas o problema estará resolvido", afirmou.

Quanto ao trigo, usado na fabricação do pão subsidiado e que, segundo o governo, abastece 16 milhões de pessoas. Farash afirmou que o Egito tem armazenado trigo suficiente até o fim do ano fiscal, em junho.

Contrariamente às notícias veiculadas, o governo não vê necessidade de racionamento, disse. Mas ele acrescentou que o governo está adotando medidas enérgicas contra a corrupção nas padarias, também. Em vez de subsidiar a farinha, o ministério vem testando um novo sistema de cartões inteligentes para pagar os padeiros com base na quantidade de pão com desconto que venderem, evitando que revendam farinha com grandes descontos. Centenas de padeiros furiosos protestaram, fechando ruas do centro da cidade. "Alguns padeiros querem que o antigo sistema continue porque é melhor para eles, mas é ilegal", disse Farash.

No Cairo, nas filas para obtenção do diesel, motoristas de caminhões e ônibus afirmam que essas medidas duras contra a corrupção não ajudam muito.

"Como podemos ganhar o dinheiro suficiente para alimentar nossas famílias", indagou Ibrahim Hussein Ibrahim, de 31 anos, que aguardava na fila em sua máquina de terraplenagem há quatro horas, numa manhã de quinta-feira.

Disse ganhar o equivalente a US$ 10 por dia na construção, mas seus patrões disseram que pagariam apenas metade do valor porque ele passava metade do dia na espera do combustível.

O óleo diesel é vendido no mercado negro a um valor duas vezes mais alto do que o preço oficial, subsidiado, embora esteja ainda a menos de US$ 2 o galão, menos da metade do preço cobrado nos Estados Unidos, o que reflete os generosos subsídios concedidos no Egito.

No Delta do Nilo, Ali Mehrous al-Dairy, patriarca de uma família de agricultores, disse que apesar de os quatro filhos aguardarem na fila em quatro postos de gasolina diferentes a noite inteira para encher os galões de combustível, nas últimas duas semanas eles vêm retornando com os recipientes vazios. Está mais difícil o combustível chegar ao mercado negro, disse ele, e é tão diluído com água que estraga as máquinas. "Não sabemos o que fazer", afirmou, olhando para as máquinas paradas, sem combustível.

Se a escassez de diesel piorar no próximo mês, quando começar a colheita, "haverá uma revolução dos famintos", afirmou Adbel Moeim Abdel Hady, de 40 anos, um outro agricultor. No posto de gasolina Mobil Oil, vazio, empregados disseram que especuladores, açambarcadores e agricultores desesperados já os ameaçam com facas, bastões e armas. Na fase da colheita "as pessoas vão se matar", disse Hamdy Hassan, de 37 anos, motorista de caminhão, parado na frente de um posto fechado. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

* É CORRESPONDENTE NO CAIRO

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