REUTERS/Carlos Garcia Rawlins
REUTERS/Carlos Garcia Rawlins

Escassez na Venezuela aumenta número de casos de desnutrição infantil

Segundo especialistas, falta de fórmulas lácteas e alimentos com proteínas agrava problema tanto nos hospitais como nas escolas

O Estado de S.Paulo

29 Julho 2016 | 14h07

CARACAS - O desabastecimento na Venezuela provocou um aumento da desnutrição infantil, problema que sempre foi enfrentado pelo país, mas que agora se agrava pela falta de fórmulas lácteas e alimentos com proteínas.

O alerta foi dado pela representante da Sociedade Médica de Puericultura e Pediatria da Venezuela, Livia Machado, que adverte que o desabastecimento está presente tanto nos hospitais como nas escolas.

Os filhos de Rosibel Martínez são um reflexo desta realidade. Rosibel tem 37 anos, é mãe solteira, vende empanadas e bolos, e tem cinco filhos - um bebê de 7 meses que sofre de desnutrição e uma adolescente de 14 anos.

Dilan, que nasceu na 37ª semana de gravidez com 2,5 kg, foi amamentado até os 4 meses porque a mãe teve que trabalhar para continuar a sustentar a família.

Durante esse período, o bebê também foi alimentado com fórmula láctea quando tinham "a sorte de consegui-la", mas há três meses não é possível obter o alimento. "A última vez que comprei (a fórmula) custou 5 mil bolívares (R$ 1,6 mil) o pote pequeno. Isso dura uma semana. O que faço é misturar o leite com amido de milho para que renda", explicou a mãe.

Diante desta situação, Rosibel começou a alimentar o filho com mamadeiras de amido de milho, chicha (bebida fermentada a base de milho), sopas de abóbora e aipo que, às vezes, não incluem proteínas pelo alto custo da carne e do frango, o que levou a criança a perder 2,8 kg em junho.

Na sexta-feira, Dilan foi internado no Hospital Domingo Luciani, ao leste de Caracas, com diarreia e desidratação. Os médicos constataram que o bebê tinha apenas 5 kg, depois de ter pesado 7,8 kg no mês anterior.

"Essa situação se deve à ausência de proteínas", advertiu um dos médicos, que não quis ser identificado por temer represálias das autoridades.

De acordo com os nutricionistas, a idade crucial do ser humano está nos dois primeiros anos de vida. Essa etapa, cuja nutrição tem grande influência, determina o desenvolvimento físico e intelectual da pessoa.

"A falta de proteínas faz com que se diminua a albumina e que as crianças tenham edemas, característica de uma das desnutrições mais severas", explicou Livia Machado. A médica detalhou que a desnutrição ocorre quando o organismo não recebe nenhum "alimento nutritivo, como a proteína, porque não produz enzimas, anticorpos, e isso faz com que as crianças fiquem expostas a germes da comunidade". "O leite é um alimento insubstituível na alimentação da criança menor de dois anos", comentou.

A escassez de fórmulas lácteas para bebês também afeta os hospitais. No caso do centro pediátrico de referência na Venezuela, o J.M. de los Ríos, em Caracas, a situação foi resolvida graças às doações vindas de Estados Unidos e Espanha, segundo a chefe do Serviço de Nutrição, Ingrid Soto. Mas em outras instituições médicas não há fórmulas ou doações.

O problema levou algumas mães a alimentarem os filhos com "água com farinha, água de espaguete, o que elas puderem adquirir, seja arroz ou milho", disse a médica.

O desabastecimento também chega a muitos colégios públicos, que deixaram de oferecer alimento aos estudantes. A irmã de Dilan, de 14 anos e estudante do ensino médio, relatou que precisou faltar às aulas por não ter nada para comer e que inclusive desmaiou durante a educação física porque não havia tomado café da manhã.

"Ligaram do colégio para me perguntar por que as crianças estavam faltando tanto às aulas e eu disse: 'professora, não tenho alimentos, como faço para mandar meus filhos (à escola) se não tenho comida?", relatou a mãe, ao confessar que "nunca tinha vivido uma situação como esta". / EFE

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.