REUTERS/Carlos Garcia Rawlins
REUTERS/Carlos Garcia Rawlins

Escassez de produtos básicos cresce na Venezuela e chega a 75% dos itens

Insatisfação com falta de alimentos, medicamentos, material escolar e produtos de limpeza ameaça retirar, pela primeira vez desde 1999, o chavismo do controle da Assembleia Nacional nas eleições parlamentares marcadas para o dia 6 de dezembro

ROBERTO LAMEIRINHAS, ENVIADO ESPECIAL / CARACAS, O Estado de S. Paulo

23 de agosto de 2015 | 02h00

CARACAS - As filas passaram a fazer parte do cotidiano da Venezuela. Falta de leite a farinha de milho – base da receita da arepa, um dos principais alimentos da dieta dos venezuelanos –, de fralda descartável a pasta de dente, de material escolar a medicamentos.

Há, certamente, mais de uma razão para explicar o índice de desabastecimento, que atinge 75% dos produtos monitorados pelo governo, e é quase certo também que ele exercerá uma influência decisiva nas eleições parlamentares de 6 de dezembro, nas quais o chavismo está ameaçado de perder o controle do Legislativo venezuelano pela primeira vez desde a promulgação da Constituição de 1999.

“Há controle oficial de preços, ameaça a setores produtivos, falta de incentivo à indústria, desconfiança do mercado, ausência de crédito e uma série de questões que afetam a produção de bens e produtos”, explica Mary Ochoa, da consultoria Venecon. 

“A isso, deve-se acrescentar a ação de contrabandistas e especuladores, mas também as intervenções do governo como as que ocorreram na fábrica da Polar (maior produtora de alimentos do país) há duas semanas, que em lugar de favorecer, atrasou a produção e a distribuição de produtos.”

Disputa. Na semana passada, o presidente da coalizão oposicionista Mesa da Unidade Democrática (MUD), Jesús Torrealba, acusou o presidente Nicolás Maduro de buscar causar “um levante social” para que o chavismo não tenha de enfrentar o desafio eleitoral. Torrealba disse ainda que as ações de confisco do governo também colocavam em risco mais de 3 mil empregos.

As autoridades de Caracas, por seu lado, denunciam uma “guerra econômica” – conspiração de empresários, banqueiros e elite política pré-Chávez – com a qual a oposição tenta frear a “revolução bolivariana” e o “socialismo do século 21”.

“Não tenho mais dinheiro para comprar tudo aquilo que comprava seis meses atrás”, disse ao Estado, na fila do Mercal Bicentenário, estabelecimento estatal que vende produtos a preços subsidiados, o comerciário Julio – quase nenhum venezuelano nas ruas aceita informar o sobrenome a estranhos. “Mesmo que tivesse, não conseguiria comprar água sanitária nem detergente para lavar a louça.”

Racionamento. As filas só não são maiores porque há um sistema de rodízio para as compras nos “mercais”, definido de acordo com o último algarismo da cédula de identidade do consumidor. 

Quase tudo o que a Venezuela consome é importado e o governo provê parte dos dólares aos importadores para que tragam os produtos. Na visão dos governistas, porém, boa parte desses dólares é desviada para o mercado paralelo de câmbio – além disso, parte dos produtos que deveria ser distribuída acabaria caindo no contrabando. “Em meio à guerra política, seguimos nas filas”, desabafa Julio, que não pretende votar nas eleições de dezembro.

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