VANESSA VIEIRA/ESTADAO
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Escassez e violência: Duas refeições por dia. E só 

Kevin, aos 22 anos, prepara viagem para o Chile: ‘Não quero morrer por um tênis ou um celular’

Claudia Müller, O Estado de S. Paulo

20 Agosto 2016 | 22h37

Aos 22 anos, Kevin está vendendo as poucas coisas que tem – uma geladeira, um computador e as peças de um celular quebrado – para juntar dinheiro para sair da Venezuela. Desanimado com a falta de segurança no país, ele pretende tomar um ônibus rumo ao Chile, levando o irmão de 17 anos. Quando chegar lá, precisa arrumar emprego e um lugar para morar – e então levará os pais, que agora ficarão na Venezuela.

Ao todo, a travessia deve durar quase uma semana. Somente a parte brasileira custará a eles de três a quatro dias, em mais de 2,8 mil quilômetros de viagem com saída de Puerto Ordaz, na Venezuela, e passagens por Manaus, Porto Velho e Guajará-Mirim, na divisa de Rondônia com a Bolívia. Até Porto Velho o trajeto será feito de ônibus, depois seguirão de táxi para a cidade rondoniense. Da casa dele no Estado de Táchira até o destino previsto no Chile, Iquique, são mais de 6,4 mil km.

Kevin pretende conseguir US$ 600 antes de sair do país, o que está programado para o fim de outubro. A viagem custará a ele US$ 200 e a outra parte do dinheiro será usada para recomeçar a vida. “Nós já vamos levar comida suficiente para dois e, caso precisemos dormir fora do ônibus, será na rodoviária, porque não temos dinheiro para alugar um lugar para ficar.”

No Chile não há nada arranjado, a ideia é conseguir qualquer emprego que aparecer. A única ajuda vem de uma amiga, que ofereceu moradia por um mês na casa da irmã, caso ele não consiga um lugar para morar.

Em dois anos Kevin se formaria em Letras, mas diz que não pode esperar. “Eu não quero ser morto por um celular ou um par de tênis antes da minha graduação”. A esperança em um país melhor se esvaiu há seis meses, quando viu a família cada vez mais pobre em meio a inflação e sem ninguém por perto que pudesse ajudar. “Eu estava pagando aluguel e comprando comida para nós quatro desde que meu pai perdeu o emprego, no começo da crise.” 

Um dos maiores problemas da família é a fome. Atualmente, eles fazem apenas duas refeições por dia: o café da manhã às 11 horas e o almoço às 17 horas, raramente conseguem jantar. De manhã, comem arepas, prato típico da Venezuela feito de massa de pão com milho moído. “Para o almoço temos arroz com ovo ou massa, carne apenas uma ou duas vezes na semana”. O arroz, entretanto, é um tipo destinado à animais, o único disponível para compra e quase do mesmo preço que a versão tradicional.

Kevin diz que nos tempos em que Hugo Chavéz era presidente “as coisas não eram melhores”, mas também o país não era tão destruído economicamente. “Eu trabalhava por menos da metade do salário que tenho hoje e conseguia viajar para a praia ou comprar roupas novas o tempo todo”, lembra. “Nós podíamos até comer fora de casa pelo menos duas vezes por mês. Hoje isso tudo é só um sonho”.

Nesse tempo, ele trabalhava em uma loja no shopping vendendo roupas. Com a chegada da crise, começou a trabalhar em um restaurante e agora é cozinheiro. “Quero conseguir muita experiência para minha viagem”. O pai era segurança quando foi demitido, mas conseguiu um emprego com um amigo e passou a vender peças de carros, ganhando pouco menos de um salário mínimo. “Sinto saudades daquele tempo quando podia sair à noite sem achar que levaria um tiro a cada esquina ou quando era possível comprar um carro, uma bicicleta, uma casa”, lamenta.

Ele conta com o apoio dos pais, que o ajudam a conseguir o dinheiro necessário. “Eles querem que eu faça essa viagem porque sabem que não há futuro para nós aqui, está frustrante e depressivo morar na Venezuela”. E não sabe explicar como se sente diante do desafio de emigrar. “Às vezes mal, às vezes encorajado, mas isso é o que tenho de fazer e tenho esperanças de que vou conseguir”. 

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